quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Crítica: Hamnet - A Vida Antes de Hamlet (2026)


Que Romeu e Julieta é a peça de William Shakespeare mais lembrada por todos, isso é praticamente incontestável. No entanto, a frase "Ser ou não ser, eis a questão", de A Tragédia de Hamlet, é, sem dúvida alguma, a mais conhecida e repetida de toda a obra do dramaturgo. Dirigido por Chlóe Zhao (de Nomadland), Hamnet: A Vida Antes de Hamlet se baseia no livro homônimo escrito por Maggie O'Farrell, e mostra como uma tragédia familiar influenciou a criação de uma das obras mais emblemáticas da história.



O filme deixa claro desde o início que Shakespeare não é o centro da narrativa. Aliás, seu nome sequer é mencionado até quase o final da história. O foco recai sobre sua esposa, Agnes (Jessie Buckley), uma personagem da história da qual pouco se tem registros. Zhao a apresenta como uma mulher introspectiva, profundamente conectada à natureza e marcada por traumas antigos, como a perda precoce da mãe. Essa relação quase espiritual com o ambiente ao seu redor funciona como uma forma de sobrevivência emocional, até que sua rotina é interrompida pela chegada de William (Paul Mescal), um homem que está dando aulas de latim pra crianças do vilarejo.

É justamente nesse ponto que o filme começa a tropeçar. A construção do relacionamento entre Agnes e William soa apressada e pouco orgânica. Do primeiro encontro ao casamento, passando pelo beijo repentino, a rejeição das famílias e o nascimento dos filhos, tudo acontece com muita rapidez, o que impede qualquer envolvimento mais profundo com os personagens. Mesmo com um ritmo de montagem lento, a narrativa parece ansiosa demais em avançar etapas, o que enfraqueceu, pelo menos para mim, o impacto emocional dos acontecimentos futuros.


Com o passar do tempo, William começa a se transformar no Shakespeare que conhecemos, viajando constantemente para a cidade grande em busca de reconhecimento como dramaturgo. No entanto, esse processo também é retratado de forma superficial, e em nenhum momento o filme transmite a sensação de estarmos acompanhando o verdadeiro nascimento de um gênio artístico. Durante uma dessas viagens, seu filho Hamnet acaba sucumbindo à peste, vindo a óbito. A tragédia, irreversível, marca um novo ponto de ruptura na vida de Agnes, mais uma vez devastada pela perda, e mais uma vez sozinha.

Infelizmente, Zhao parece pesar mais do que deveria no sentimentalismo. Diferente do naturalismo delicado que marcou Nomadland, o drama aqui soa menos espontâneo, como se a diretora estivesse constantemente buscando provocar lágrimas no espectador mais sensível. A dor pela perda de um filho é, por si só, um acontecimento de impacto avassalador, que não precisaria de tantos sublinhados emocionais para funcionar. Além disso, o filme flerta com o fantástico em alguns momentos, o que acaba afastando a narrativa de um realismo mais cru e comprometendo sua força dramática.


A obra se propõe a refletir sobre a transformação da dor em arte, sobre como o luto pode ser transfigurado em criação, no entanto, essa abordagem encontra um desequilíbrio ao tratar o sofrimento de Shakespeare, que estava ausente no momento da morte do filho. Embora sua dor não seja menor, a narrativa já está tão ancorada na experiência de Agnes que a presença de William em cena parece fria, distante e até deslocada. Essa assimetria emocional gera um estranhamento, enfraquecendo a reflexão final sobre o impacto da tragédia na obra do autor.

É claro que o filme tem seus momentos assertivos e pontos positivos, e o principal deles é a atuação magistral de Jessie Buckley. Ela em cena é um acontecimento, e acaba se tornando o verdadeiro eixo emocional do filme. Seus olhares, suas expressões e seus gestos comunicam uma dor profunda com uma intensidade quase palpável, tornando impossível desviar a atenção sempre que Agnes ocupa o quadro. As crianças também estão incrivelmente bem, com destaque para Jacobi Jupe, que faz o menino Hamnet.


Por fim, Hamnet: A Vida Antes de hamlet é uma obra visualmente delicada, com pequenos momentos sensíveis e bonitos, mas emocionalmente irregular, que toca em temas universais como luto, memória e criação artística sem conseguir explorá-los em toda a sua complexidade. Acaba sendo eficaz como retrato do sofrimento silencioso de uma mulher, mas não como reflexão sobre a gênese de uma das maiores tragédias da literatura.

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