Que a vida é frágil, isso todos nós sabemos, mas a verdade é que nem sempre temos a verdadeira dimensão do quanto. Um gesto banal ou único erro cometido, independente se por descuido ou vontade própria, é capaz de transformar um destino para sempre e deixar marcas irreversíveis. É sobre este tema que trata Father (Otec), filme da diretora Tereza Nvotová, inspirado em uma história real e escolhido para representar a Eslováquia no Oscar de 2026.
O filme começa nos inserindo dentro da rotina matinal de uma família comum. O pai, Michal (Milan Ondrík), sai de casa para fazer sua corrida diária, e após voltar para casa e tomar um banho, se prepara para ir ao escritório onde trabalha. As notícias na televisão indicam que será mais um dia escaldante de calor em meio ao pico do verão europeu, e sua esposa Zuzka (Dominika Morávková) pede que ele deixe a filha do casal, Dominika (Dominika Zajcz), na creche durante o caminho. Tudo parece absolutamente normal, e é justamente essa tranquilidade que torna o golpe seguinte tão devastador.
Logo, vemos o homem no ambiente de trabalho, rodeado de preocupações e telefonemas que não acabam mais, num estado de estresse que já parece ser rotineiro. Essa aparente normalidade é despedaçada quando ele recebe uma ligação da esposa no meio da tarde, questionando o porquê da filha do casal não ter sido deixada na creche conforme o combinado. A partir de então, o mundo de Michal desaba. Apesar da lembrança vívida de tê-la deixado lá, a realidade é outra: ele esqueceu a criança dentro do carro, presa à cadeirinha, sob um sol implacável e uma temperatura desumana. O desfecho é irremediável: quando ele corre até o carro, encontra a menina morta.
A mudança no tom do filme causa um impacto imediato e sufocante no espectador. Milan Ondrík entrega uma atuação impressionante, transitando com precisão entre o homem absorvido pelas pressões do trabalho e alguém completamente devastado após a perda da filha, uma dor que é ainda mais agravada pela consciência de sua própria culpa no ocorrido. A cena em que essa tragédia se concretiza é uma das mais perturbadoras e potentes do cinema recente, daquelas que ficam martelando na cabeça muitos dias depois de assistir ao filme.
Outro grande acerto da direção é mostrar a forma como a esposa de Michal lida com a tragédia. Mesmo desesperada, e com a consciência de que a morta da filha poderia ter sido evitada, ela engole a dor para demonstrar uma empatia inesperada pelo marido, pois no fundo sabe que Michal jamais teria feito isso de maneira proposital. É uma reação muito humana, talvez até incompreensível para alguns. Os dias que se seguem após a tragédia também não são nada fáceis para o casal, como acontece sempre em situações como esta. Uma das cenas mais marcantes neste processo é quando eles precisam retirar na delegacia o veículo onde a menina veio a óbito, uma função burocrática que inevitavelmente causa uma grande comoção em ambos.
Apesar do drama intenso, em momento algum a direção cai em armadilhas narrativas e apela para o sentimentalismo barato, e a dor dos personagens, assim como a culpa devastadora que Michal carrega, é tratada com um realismo cru e respeitoso. Quando o filme pula para o julgamento de Michal no tribunal, surge mais um dilema moral: será que existe punição maior do que carregar, para o resto da vida, a culpa da morte trágica da sua única filha? O próprio Michal diz não se importar com o resultado, já que isso jamais trará sua filha de volta, e é impossível não sentir a dor por trás desta declaração.
Esse questionamento ecoa para além da tela e atinge diretamente o espectador, sobretudo porque casos como esse existem fora da ficção, e nem sempre são recebidos com empatia. Father não oferece respostas fáceis, mas nos obriga a encarar uma das faces mais dolorosas da condição humana: a de que, às vezes, a tragédia nasce não da maldade, mas do cansaço, da falha e da fragilidade que define a nossa trajetória.




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