quarta-feira, 15 de julho de 2026

Crítica: Heel (2026)


O cineasta polonês Jan Komasa ganhou reconhecimento internacional em 2020, quando seu drama Corpus Christi (Boże Ciało) figurou entre os cinco indicados ao Oscar de Melhor Filme Internacional, prêmio que acabou ficando com o sul-coreano ParasitaEm Heel (inicialmente anunciado com o nome Good Boy), o diretor demonstra mais uma vez o seu interesse por personagens difíceis de admirar, mas fascinantes de acompanhar, girando em torno de um protagonista moralmente ambíguo, cuja trajetória evoca os mais diversos sentimentos.


O filme começa nos mostrando uma noite comum na vida de Tommy (Anson Boon), um jovem delinquente, impulsivo e sem qualquer senso de responsabilidade. Líder de um grupo que grava agressões contra desconhecidos e atos de vandalismo para divulgação nas redes sociais, ele vive em um ciclo de violência, consumo de drogas, sexo inconsequente e explosões de raiva. Seu comportamento autodestrutivo parece fazer parte da rotina, incentivado pelos próprios amigos, que transformam cada infração em entretenimento.

Tudo muda quando, após desmaiar na rua depois de mais uma noite de excessos, Tommy desperta acorrentado em um porão escuro, usando uma coleira no pescoço. Logo conhecemos Chris (Stephen Graham), o proprietário da casa, que vive com a esposa Kathryn (Andrea Riseborough) e o filho Jonathan (Kit Rakusen). Revoltado com os inúmeros crimes do jovem registrados em vídeos publicados na internet, Chris decide submetê-lo a uma espécie de "reabilitação" forçada. A premissa inevitavelmente remete a Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick, ao apresentar um jovem violento sendo submetido contra sua vontade a um processo de condicionamento para voltar ao convívio social como alguém "melhor".


A questão moral abordada neste "sequestro" é o que move o filme. É evidente que o cárcere privado promovido pela família não pode ser tratado como algo aceitável, mas ao mesmo tempo, Tommy é construído de maneira tão repulsiva nos primeiros minutos, que a reação instintiva do espectador é questionar até que ponto alguém como ele merece compaixão. Essa ambiguidade funciona muito bem porque embora estejam cometendo um crime, Chris e sua família nunca são retratados como pessoas cruéis ou sádicas; pelo contrário, parecem genuinamente acreditar que estão oferecendo ao rapaz uma oportunidade de mudar, e isso torna tudo ainda mais desconfortável. À medida que Tommy demonstra sinais de cooperação, ele passa a receber pequenas recompensas: um quarto mais confortável, uma alimentação mais robusta e maior liberdade para circular pela casa graças ao aumento da extensão da corrente que o prende. Aos poucos, ele decide embarcar naquela estranha dinâmica familiar, desenvolvendo laços inesperados tanto com a empregada recém-contratada (Monika Frajczyk) quanto com o menino Jonathan.

As atuações contribuem decisivamente para essa credibilidade. Stephen Graham entrega mais uma interpretação intensa, equilibrando firmeza e vulnerabilidade sem transformar Chris em um simples justiceiro. Andrea Riseborough acrescenta camadas importantes à esposa, frequentemente dividida entre apoiar o marido e questionar os limites daquela situação absurda, enquanto Kit Rakusen confere espontaneidade ao jovem Jonathan, peça fundamental para humanizar o ambiente. Mesmo Tommy, inicialmente quase impossível de suportar, ganha nuances conforme o roteiro avança, tornando sua transformação mais convincente.


Por fim, Heel é uma proposta provocativa, sustentada por personagens complexos e por um roteiro que constantemente desafia nossos próprios limites éticos. O único ponto negativo é que em sua reta final, o longa parece apressar conclusões que mereciam maior desenvolvimento. Apesar disso, não deixa de ser um thriller psicológico desconfortável e repleto de cenas que continuam ecoando muito depois dos créditos finais.

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