Filmes com animais falantes possuem uma doçura e um ar de inocência que só quem viveu a Sessão da Tarde nos anos 1990 lembra bem como era. Crescemos assistindo ao porquinho atrapalhado de Babe, ao trio inseparável de A Incrível Jornada, ao ratinho de Stuart Little, e a tantas outras obras do gênero que possivelmente só teriam dado certo naquele momento, já que no cinema de hoje a premissa soa bastante boba. Ainda assim, em pleno 2026, As Ovelhas Detetives (The Sheep Detectives) surge como uma ótima adição à lista de filmes já citados, e tem tudo para, em alguns anos, também ser lembrado como um dos grandes representantes do subgênero.
A trama acompanha George Hardy (Hugh Jackman), um pastor de ovelhas que vive no pacato vilarejo fictício de Denbrook, no interior da Inglaterra. Ele apresenta seus animais, sua rotina camponesa e seu pequeno vilarejo através de uma carta endereçada à sua filha Rebecca (Molly Gordon), que mora nos Estados Unidos, convidando-a para finalmente conhecer o lugar. No passado, George precisou entregá-la para adoção ainda bebê e apenas agora, décadas depois, descobriu seu paradeiro, decidindo reconstruir o vínculo que nunca pôde existir.
No dia a dia, George trata seu rebanho com enorme carinho e atenção, nomeando cada ovelha e cuidando delas como se fossem verdadeiros membros da família. Toda noite ele reúne os animais em frente ao trailer onde mora para ler um romance policial, sem imaginar que eles acompanham atentamente cada capítulo para, depois, discutirem a história entre si. Como em outros filmes do gênero, os animais não falam com os humanos, apenas entre eles, e é justamente dessa premissa que nasce um dos aspectos mais encantadores da obra.
O diretor constrói uma cultura própria para as ovelhas, cuja forma de interpretar o mundo humano desperta curiosidade constante. Elas tentam compreender conceitos como religião, a vida agitada das cidades, a maldade e, principalmente, o luto. Há, inclusive, uma passagem particularmente bonita em que as ovelhas adultas explicam aos filhotes que aqueles que partem se transformam em nuvens de algodão. É um momento de grande sensibilidade, que utiliza a ingenuidade dos animais e a individualidade de cada um para refletir sobre temas profundamente humanos.
Após uma noite de tempestade, o rebanho encontra George morto no pasto. A polícia conclui rapidamente que a causa foi um ataque cardíaco e não demonstra interesse em investigar além do necessário. As ovelhas, no entanto, tem certeza de que ele foi assassinado, talvez influenciadas pelas histórias de crime que ele mesmo contava. Convictas disso, passam a formular hipóteses e tentam conduzir discretamente o policial Tim Derry (Nicholas Braun) até a verdade, recorrendo aos pequenos sinais que conseguem transmitir aos humanos.
É um filme fofo e singelo, e cuja premissa jamais soa ridícula. A estrutura clássica dos romances de detetive conduz a narrativa e culmina em uma resolução divertida, que demonstra conhecer muito bem as convenções do gênero. A revelação final ironiza essas fórmulas ao mostrar que as ovelhas já haviam compreendido praticamente toda a verdade apenas por reconhecerem padrões presentes nas histórias que George costumava ler: uma morte misteriosa, interesses financeiros, suspeitos improváveis e a inevitável reviravolta. Mais do que uma homenagem aos tradicionais filmes de animais falantes, As Ovelhas Detetives também se revela uma divertida carta de amor às narrativas policiais, equilibrando humor, emoção e mistério com uma delicadeza difícil de encontrar no cinema contemporâneo.
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