O isolamento dentro de casa, o medo de faltar mantimentos, um perigo invisível rondando no ar, o tédio consumindo a convivência familiar e a longa espera de que tudo isso um dia acabe. Essas sensações fazem você lembrar de algum momento recente da nossa história? Pois em A Última Casa (The Last House), o diretor Louis Leterrier, mesmo que de forma implícita, recria aquela atmosfera que vivemos durante a pandemia de Covid-19, misturando elementos de ficção científica e terror, para mostrar uma família tentando sobreviver ao confinamento forçado e a uma ameaça mortal e assustadora.
O filme inicia com mais um dia aparentemente comum na vida do pescador Jason (Wagner Moura), que vai para casa após perceber uma tempestade se aproximando da costa. Quando ele, a esposa Ann (Greta Lee) e os dois filhos (Noah Alexander Sosnowski e Riley Chung) tentam sair de casa para ir ao mercado, descobrem que estão trancados. Todas as portas e janelas estão misteriosamente bloqueadas. Até mesmo os vidros se tornam inquebráveis e, não importa quanta força empreguem, nenhuma das saídas pode ser violada. Logo, eles percebem que os vizinhos estão na mesma situação, todos presos dentro de suas próprias casas, se comunicando através de cartazes e lousas. Por falar em comunicações, os sinais de internet e telefone estão fora do ar, potencializando ainda mais o sentimento de isolamento do mundo exterior.
Na primeira hora do filme, fica nítida a intenção do diretor em trabalhar este isolamento absoluto, e é justamente aí que o filme funciona melhor. Não é o primeiro, nem será o último longa a abordar o quanto somos dependentes da tecnologia e o quão caótica seria a vida se, de um dia para o outro, perdêssemos acesso a ela. Hoje em dia, sequer conhecemos quem são nossos vizinhos, enquanto acompanhamos a rotina e conhecemos os hobbies de pessoas que nunca vimos pessoalmente. A internet nos aproximou do mundo, mas paradoxalmente, nos distanciou de quem está perto, até mesmo de quem mora na mesma casa. É uma discussão recorrente, mas que continua pertinente.
Diante deste cenário, a família precisa reaprender a viver longe dos meios digitais. Telefones e tablets dão lugar a jogos de tabuleiro e passatempos manuais, como pintar e desenhar. Os streamings são substituídos pelos discos de vinil e DVDs, e pequenas práticas do dia a dia voltam a ser analógicas, até mesmo na tentativa de conseguir alimentos depois que os mantimentos chegam ao fim, como uma armadilha improvisada para capturar os animais que passam pelo pátio, lançada através de um buraco na chaminé. Enquanto isso, do lado de fora, uma criatura misteriosa começa a aparecer durante as tempestades, que se tornam diárias.
O problema é que, conforme os dias passam, as passagens de tempo aceleradas e a falta de uma ambientação mais cuidadosa entre elas tornam a experiência progressivamente cansativa. O filme abandona parte da interessante discussão sobre o confinamento para investir em uma abordagem mais convencional de sobrevivência, introduzindo também o velho clichê do pai “super-herói”, que, graças aos seus conhecimentos, consegue montar todo tipo de engenhoca para manter a família viva. Algumas dessas ferramentas funcionam dentro da lógica do filme, já outras parecem convenientemente forçadas, porque o roteiro precisa que elas funcionem. Ainda assim, a ameaça do lado de fora continua sendo suficiente para manter algum interesse, principalmente porque o longa demora a revelar o que, afinal, está acontecendo.
Talvez seja justamente por isso que seu desfecho decepciona tanto. Depois de construir a criatura, uma espécie de polvo gigante com vários tentáculos, como uma ameaça misteriosa e potencialmente aterrorizante, o roteiro escolhe um caminho preguiçoso para transformá-la em uma figura... empática. A tentativa de humanizar o grande “vilão” até poderia funcionar em outro contexto, mas aqui surge de maneira tão artificial que acaba produzindo uma das cenas mais patéticas que vi este ano no cinema, esvaziando completamente a sensação de ameaça que permeou o filme inteiro.
Por fim, A Última Casa pode não ser um respiro de originalidade, mas também está longe de ser um grande desastre. Sua premissa oferece boas possibilidades, especialmente quando o filme se concentra na experiência do confinamento e na maneira como uma família precisa reconstruir sua rotina. Pena que a história abandone parte desse potencial justamente quando começa a precisar de soluções mais criativas. Greta Lee e Wagner Moura sustentam o longa com atuações muito seguras, e fica bem claro que sem os dois, provavelmente A Última Casa teria descambado de vez. Foi por pouco.




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