Lembrando histórias clássicas e comoventes sobre amadurecimento, como Conta Comigo (1986) e Sempre Amigos (1998), Fränk marca a estreia do estoniano Tõnis Pill na direção de longas-metragens. Segundo o próprio diretor, o filme é baseado em um caso real e sombrio que marcou profundamente sua infância no interior da Estônia, quando, ainda menino, presenciou as trágicas consequências do bullying cometido por um grupo de garotos contra um homem com deficiência intelectual.
O filme acompanha Paul (Derek Leheste), um jovem que acaba de completar treze anos. Ele é levado da cidade grande pela mãe (Katariina Tamm) para passar alguns dias com o tio, Aivar (Märt Pius), em uma pacata cidade do interior. O motivo da viagem, porém, é mais complexo do que parece: o pai de Paul (Märt Avandi) é um homem violento e, após o garoto presenciar mais um episódio de violência doméstica, sua mãe decide mantê-lo afastado daquele ambiente até que as coisas se acalmem.
Dono de uma personalidade forte, acentuada pela dura realidade que enfrenta dentro de casa, Paul logo se aproxima de uma gangue de garotos da cidade, liderada por Jasper (Tõru Kannimäe). Eles passam o tempo livre perambulando pelas ruas, cheirando cola, bebendo álcool e praticando bullying contra Sasha (Oskar Seeman), um homem com deficiência intelectual e o rosto desfigurado, a quem os garotos chamam pejorativamente de “Frank”, em referência ao monstro de Frankenstein.
Apesar da “casca dura”, Paul demonstra ter um coração sensível e começa a se compadecer de Sasha. Primeiro por conveniência, ao perceber que pode usá-lo para conseguir cerveja no mercado; depois, por empatia, ao enxergar que, apesar de suas limitações, Sasha é um ser humano como qualquer outro, com seus próprios gostos, interesses e desejos. Enquanto mantém uma amizade secreta com ele, Paul ainda precisa provar ao grupo que não sente piedade, a fim de ser aceito, em um dilema bastante palpável, sobretudo em uma idade na qual a necessidade de pertencimento pode falar mais alto do que os próprios valores.
O filme toma novos rumos quando Paul e Jasper passam a brigar pela liderança do grupo, principalmente depois que um dos membros fica gravemente ferido por um ato de pura inconsequência de Jasper. O roteiro também passa a trabalhar com mais complexidade a personalidade deste personagem, mostrando que muito do seu comportamento raivoso e delinquente vem da relação com o pai, um homem rígido ao extremo.
Desta forma, o filme constrói um retrato implacável de como o ambiente ao redor pode moldar não apenas o caráter de quem ainda está encontrando seu espaço no mundo, mas também a maneira como essa pessoa enxerga e trata aqueles que considera diferentes. No fundo, todos os personagens são vítimas antes de serem apenas agressores. Cada um carrega suas próprias dificuldades e histórias familiares complexas. Isso não serve para redimir seus atos, é claro, mas para levantar uma questão mais incômoda: até que ponto determinadas escolhas são realmente escolhas, e até que ponto são apenas reflexos daquilo que essas crianças aprenderam desde cedo?
O elenco, em grande parte formado por jovens atores, cumpre muito bem seu papel, enquanto a fotografia contribui para criar uma atmosfera convincente dos anos 1990. Fränk é um filme cru e pesado, mas que, acima de tudo, exala humanidade e sensibilidade. Embora derrape um pouco na reta final ao abraçar um sentimentalismo excessivo e um tom previsível de “mensagem inspiradora”, isso pouco compromete seu resultado. Tõnis Pill encontra força justamente ao observar seus personagens para além de seus atos, mostrando como violência, abandono e necessidade de pertencimento podem se entrelaçar durante uma fase tão determinante da vida.



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