Após uma tentativa de golpe de estado que ocorreu em julho de 2016, o governo turco de Recep Tayyip Erdogan iniciou uma caça às bruxas institucional, realizando expurgos em massa em universidades, órgãos públicos e companhias culturais, onde milhares de funcionários foram arbitrariamente demitidos sob acusações de manterem algum vínculo ideológico com os golpistas. Esse episódio serve como base para Cartas Amarelas (Gelbe Briefe), filme do diretor Ilker Çatak, que aborda o autoritarismo e a progressiva perda de liberdades que a sociedade turca vem enfrentando desde então.
Vencedor do Urso de Ouro de melhor filme no último Festival de Berlim, o filme acompanha o casal Derya (Özgü Namal) e Aziz (Tansu Biçer), que leva uma vida aparentemente tranquila na capital do país, Ancara, enquanto as notícias na televisão mostram que fora das suas quatro paredes as coisas estão bem caóticas. Derya é uma renomada atriz de teatro, enquanto Aziz é dramaturgo e professor universitário. Os dois colaboram nas peças escritas por Aziz, e demonstram um forte engajamento político redes sociais, embora sem grandes exposições públicas. Isso não seria problema se Derya, após uma apresentação teatral, não tivesse se negado a tirar uma foto com um político importante. Esta recusa acaba atraindo uma investigação do governo contra eles, durante a qual também vem à tona a informação de que Aziz teria incentivado seus alunos a participarem de uma manifestação política.
A trama toma novos rumos quando o casal e todos os seus colegas de profissão passam a receber as famosas cartas amarelas do governo, que anunciam suas demissões. Mais do que isso, Aziz também terá que responder perante um tribunal pelo suposto crime de insubordinação e incitação ao terrorismo. A perseguição política os obriga a se mudar para Istambul, levando junto a filha adolescente Ezgi (Leyla Smyrna Cabas). A partir de então, os dois precisam encontrar alternativas para reconstruirem suas vidas: Aziz passa a trabalhar como taxista, e a perda dos privilégios e do conforto que tinham antes, acaba inevitavelmente afetando a relação dentro de casa, trazendo à tona conflitos que até então permaneciam em segundo plano.
Sempre que a democracia começa a ruir em algum país, a classe artística e intelectual costuma estar entre as primeiras que sofrem os efeitos da repressão. O roteiro ilustra muito bem essa realidade, mas também não deixa de apontar a hipocrisia de uma parcela privilegiada da sociedade, que só parece despertar para os perigos do autoritarismo quando se torna vítima direta dele. Uma das cenas que melhor evidencia essa contradição acontece quando o casal é questionado sobre o motivo de só ter tomado conhecimento da gravidade da situação política do país naquele momento, e não antes, quando jovens e trabalhadores já estavam nas ruas lutando contra as injustiças.
Se a primeira metade do filme consegue transmitir com bastante eficiência a atmosfera sufocante e amedrontadora de uma sociedade submetida a um regime autoritário, a segunda passa a concentrar suas atenções nos conflitos internos e familiares dos protagonistas. O elemento que ainda mantém a história conectada à luta contra a opressão é a ideia de Aziz para uma peça de teatro clandestina e subversiva, que promete expor os métodos do regime. Afinal, em tempos de autoritarismo, a arte pode se tornar uma poderosa ferramenta de resistência, capaz de denunciar injustiças e provocar reflexões. Entretanto, ao final, Derya e Aziz acabam refletindo uma parcela da classe intelectual que, diante da ameaça, prefere fazer concessões para preservar aquilo que ainda lhes resta. Entre a sobrevivência da estrutura familiar e o compromisso com os ideais progressistas, eles optam pelo comodismo e pela omissão, simbolizando como o autoritarismo vence ao cansar e domesticar seus opositores.


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