segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Crítica: Nerve - Um Jogo sem Regras (2016)


Na medida em que a tecnologia avança, as pessoas parecem sentir cada vez mais necessidade de se mostrar e de se fazerem notadas a todo custo. Prova disso são aplicativos como o Snapchat, onde você pode narrar todo o seu dia para um determinado número de seguidores. É nesse cenário que surge Nerve, uma espécie de "verdade ou consequência" virtual, onde os membros recebem desafios e precisam cumpri-los num certo tempo para adquirirem mais seguidores em sua conta.


Cansada da monotonia de sua vida social e incentiva pelos amigos, Vee (Emma Roberts) resolve se inscrever no site para ver como é. No início tudo é diversão, com pequenos desafios fáceis de vencer, como se deslocar de um lugar ao outro ou beijar um desconhecido. No entanto, com o tempo as coisas começam a sair do controle, e ela precisa contar com a ajuda de Ian (Dave Franco), sua dupla no jogo, para se livrar dos perigos que a brincadeira trouxe.

A dupla de diretores já haviam abordado o tema da identidade virtual no documentário Catfish (2010), e desde o início fica evidente a crítica que novamente tentam fazer ao uso descuidado da internet. Mesmo com furos no roteiro, não dá para dizer que se trata de um filme ruim. O filme tem sim os seus bons momentos, o problema é que teima em alguns clichês adolescentes que poderiam ter sido evitados. As atuações em geral não comprometem, mas são fracas, e o que salva mesmo o filme é o seu ritmo, empolgante até o fim.


sábado, 1 de outubro de 2016

Crítica: Uma História de Loucura (2016)


genocídio do povo armênio orquestrado pelo governo turco no começo do século XX, que deixou mais de um milhão e meio de mortos, não é ensinado nas nossas escolas, e por conta disso poucos já ouviram falar do ocorrido Escrito e dirigido por Robert Guediguian, Uma História de Loucura (Une Histoire de Foi) tem a missão de não deixar esse passado ser esquecido, por mais devastador que ele seja. E principalmente de mostrá-lo ao mundo.


A trama acompanha Aram (Syrus Shahidi), um jovem de origem armênia que vive com a família em Marselha nos anos 1980. Há duas gerações atrás, Talaat Pacha, um homem da família, se tornou herói do povo armênio ao matar à queima roupa um dos líderes do genocídio, o turco Soghomon Thelirian. 60 anos depois, esse fato ainda é comemorado pelo armênios, que jamais superaram os acontecimentos.

Decidido a se vingar do passado, Aram se junta a um grupo de guerrilheiros que passam a praticar uma série de atentados contra prédios e pessoas públicas da Turquia. No entanto, ao explodir uma bomba no carro do embaixador turco, Aram acaba atingindo Gilles (Grégoire Leprince-Ringuet), um homem inocente que por estar na hora errada e no lugar errado acabou perdendo os movimentos da perna. A partir desse momento, Aram começa a se perguntar a respeito dos seus atos, e as coisas ficam ainda mais sérias quando sua mãe, sentindo-se culpada pelo filho, começa a visitar Gilles e cria uma relação de afeto como rapaz.


O filme tem como mérito mostrar como o ser-humano quer, na maioria das vezes, revidar violência com mais violência, e o quanto isso é nocivo principalmente para quem nada tem a ver com isso. O ponto forte são as atuações, além da direção firme de Guédiguian e do excelente trabalho da direção de arte. Por fim, trata-se de um filme necessário para mostrar, entre outras coisas, que todos os atos geram consequências, e que nem sempre estamos preparados para elas.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Crítica: Stonewall - Onde o Orgulho Começou (2016)


Uma série de violentas manifestações de membros da comunidade LGBT teve início após a violenta invasão policial na boate Stonewall Inn, localizada nos subúrbios de Nova York, no ano de 1969. A ação, que ganhou proporções gigantescas, se tonou um marco histórico na disputa dos homossexuais por direitos civis, e é sobre ela que nos conta Stonewall - Onde o Orgulho Começou, novo trabalho do veterano Roland Emmerich.

A trama começa acompanhando Danny (Jeremy Irvine), um jovem universitário que acabou de ser expulso de casa pelo pai após o mesmo descobrir sobre sua verdadeira orientação sexual. Sem ter onde ficar, Danny encontra abrigo na rua Christopher, no subúrbio de Nova York, onde vivem dezenas de homossexuais e onde a cena gay pulsa graças à boate Stonewall.

Após o governo federal definir o homossexualismo como uma doença mental, o bar passa a sofrer inúmeras batidas policiais, e nesse ínterim diversas pessoas acabam presas sem motivo algum, apenas por serem "diferentes" daquilo que a sociedade da época ditava como certo. O clima de guerra e o caos se instauram quando os homossexuais resolvem se rebelar contra isso, também com violência.


O enredo não linear vai e volta no passado, e mescla o dia dia de Danny e sua adaptação na nova cidade com seu passado em Kansas. Apesar da ideia parecer, a princípio, interessante e fácil de abordar, não demora para percebermos que o filme não é tudo o que de início se esperava. E isso se deve muito à própria direção de Emmerich, que se mostra precária e cheia de clichês.  

O filme carece de um envolvimento maior com o público, mas acima de tudo, faltou algo que realmente caracterizasse a importância histórica dos fatos descritos. Tudo parece meio raso, sem sentido, sem emoção. Ainda assim, apesar de todos os seus defeitos, não deixa de ser um filme importante, principalmente quando se pensa que até hoje, em pleno ano 2016, o homossexuais ainda precisam enfrentar as barreiras do preconceito da mesma forma como enfrentaram outrora.

domingo, 18 de setembro de 2016

Crítica: Mar de Árvores (2016)


A floresta Aokigahara, também conhecida como "Mar de Árvores" e localizada aos pés do Monte Fuji, é mundialmente conhecida por seu alto índice de suicídio. Em média, ao menos 100 casos são descobertos todos os anos, com pessoas de vários países do mundo, que vão até a floresta justamente com essa intenção.


Na trama de Mar de Árvores (The Sea of Trees), o diretor Gus Van Sant nos mostra um pouco mais a respeito desta misteriosa floresta sob a perspectiva de dois homens que ali estão para dar um fim à própria vida. Um deles é o norte-americano Arthur Brennan (Matthew McConaughey), que não vê mais sentido na vida após perder a mulher. O outro é o japonês Ken Watanabe, que perdeu o emprego e não tem mais condições de sustentar a família.

Os melhores momentos do filme são os diálogos entre os dois homens. Pouco a pouco, um vai ajudando o outro a repensar o ato de tirar a vida. Através de flashbacks, o filme mostra a relação que Arthur tinha com a esposa (Naomi Watts), que mesmo conflituosa ainda era verdadeira, e tudo que aconteceu para ele chegar ao desespero que se encontra. Tudo muito bem construído, com ótimas atuações de ambos.


A fotografia e a trilha sonora conseguem conduzir o espectador ao clima misterioso do local. Muitas lendas e crenças permeiam a região, conhecida por seu misticismo, e isso também é mostrado com cuidado pelo diretor, sem ser demagogo. O final, mesmo sendo previsível ao longo da trama, não deixa pontas soltas. Por fim, Mar de Árvores é, no mínimo, um filme que faz repensar o que realmente importa na vida e o modo como a levamos.

domingo, 21 de agosto de 2016

Nise - O Coração da Loucura (2016)


Algumas pessoas parecem vir à terra com um propósito e uma missão. Não que eu acredite realmente nisso, mas basta ler histórias como a da médica psiquiatra Nise da Silveira para repensarmos sobre o assunto. Nise não só revolucionou o tratamento psiquiátrico no Brasil como ajudou a dar sentido para a vida de muitos pacientes tidos como crônicos.


Em 1944, Nise (Glória Pires) foi trabalhar no Centro Psiquiátrico de Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro. Logo de cara, a doutora se viu chocada com a maneira com que eram tratados os pacientes do local, principalmente com o uso da lobotomia, prática que começou a ganhar espaço nos manicômios do país.

Decidida a mudar a realidade do lugar, Nise começou a estimular a arte nos pacientes, que ela fazia questão de chamar de clientes. Os doentes, tidos como irrecuperáveis, pouco a pouco foram demonstrando avanços consideráveis em seus tratamentos, mostrando que o que lhes faltava na verdade era apenas um pouco mais de atenção e compreensão. Obviamente que o jeito de Nise em lidar com a situação passou a causar desavenças, que culminaram em uma série de problemas envolvendo seu nome. 


O filme emociona ao mostrar a capacidade criativa que os pacientes demonstraram e o grande carinho que, da maneira deles, eles tiveram com a médica. Todas as atuações do filme são elogiáveis, com destaque, claro, para Glória Pires, sempre magnífica nos seus papéis e que aqui não é diferente. O legado de Nise ainda sobrevive, e é um grande exemplo de humanidade e respeito ao próximo.