terça-feira, 17 de março de 2026

Crítica: Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra (2026)


Após dez anos afastado do cinema, o diretor Gore Verbinski (de O Chamado, Piratas do Caribe e Rango) retorna de maneira triunfal e metendo os dois pés na porta com Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra (Good Luck, Have Fun, Don't Die), um manifesto explosivo, pulsante e extremamente divertido, que mistura ficção científica, ação e comédia para criticar de forma sagaz o avanço cada vez mais irrefreável da tecnologia nas nossas vidas.


O filme inicia em uma lanchonete de Los Angeles, onde a normalidade é abruptamente interrompida por um homem (Sam Rockwell) que chega ao local ensandecido, trajando uma espécie de armadura improvisada feita de plástico e fios enrolados, anunciando estar vindo do futuro. Enérgico, ele alerta sobre como mundo irá acabar muito em breve após o ser humano permitir ser dominado pela inteligência artificial. Em sua 118ª tentativa de evitar este colapso, ele recruta, quase à força, um grupo improvável de desconhecidos, afim de impedir o nascimento dessa tecnologia "mortal". O trajeto até o suposto local de origem da ameaça atravessa poucos quarteirões, no entanto, reserva múltiplas camadas temáticas pelo caminho. E enquanto acompanhamos o grupo nessa missão cheia de desafios inimagináveis, o roteiro usa flashbacks para mostrar de maneira episódica o que levou cada um deles até ali.

Todos os personagens tiveram suas vidas transformadas pela tecnologia de alguma maneira, e cada fragmento traz uma reflexão em sua particularidade. A primeira inserção conta a história de Mark (Michael Pena) e Janey (Azie Beetz), um casal de professores que têm lutado contra o vício dos estudantes em celular. Quando Mark toca no telefone de um dos alunos, todos os demais estudantes da escola entram em uma espécie de "transe", perseguindo ele como se fizessem parte de uma horda de zumbis. Uma sequência que flerta com o horror e sintetiza, com desconforto, a dependência contemporânea das telas.


Já a história de Susan (Juno Temple) mergulha em um terreno mais sensível e emocionalmente potente. Ela acabou de perder o seu filho único em um tiroteio na escola, e está sofrendo com o luto. A tragédia, porém, parece ter se tornado corriqueira no ambiente acadêmico, tanto que ao cruzar com outras mães que sofreram a mesma perda, uma delas lhe questiona "é a sua primeira vez?". Aqui, o roteiro aproveita para tecer uma crítica, ainda que implícita, às redes que tem servido de plataforma para incitação de crimes, e que na vida real, tem realmente sido responsável por atentados idênticos. Ao participar de um grupo de apoio, Susan descobre uma tecnologia capaz de criar um clone de seu filho com o maior número de detalhes possíveis, e se apega nesta promessa como forma de manter permanentemente o vínculo físico com ele.

Por fim, temos a história de Ingrid (Haley Lu Richardson), que desde criança foi diagnosticada com uma alergia misteriosa à tecnologia. Qualquer mínimo contato com aparelhos digitais faz com que ela tonteie e seu nariz comece a sangrar, e por conta disso, ela sempre se viu forçada a viver avessa às modernidades. Ela escolheu trabalhar como animadora de festas para crianças pois imaginava que seria um território tranquilo na sua condição, mas o uso crescente de telefones pelos pequenos começa a botar em cheque sua profissão. Para piorar a situação, seu parceiro quebra um acordo tácito firmado entre eles sobre o uso de equipamentos eletrônicos dentro de casa, e ela vê sua relação ruir quando ele se entrega completamente a uma realidade virtual. Essa parte escancara o abismo crescente entre o mundo físico e o digital, entre o mundo real cheio de problemas e contratempos e o mundo virtual perfeito.


Ao entrelaçar essas histórias com a missão central, Verbinski constrói uma crítica que, embora soe tresloucada, se releva surpreendentemente lúcida. É inegável que a inteligência artificial está invadindo nossas vidas e moldando aspectos fundamentais da nossa existência, e por mais que ela também agregue coisas boas no nosso cotidiano, é um tanto assustador pensarmos até onde ela é capaz de ir num cenário onde o ser humano está cada vez mais terceirizando suas próprias ações e emoções.

Visualmente, o filme abraça o absurdo sem pudor. O maior exemplo dessa insanidade está na figura grotesca de um centauro gigante com cabeça de gato, que surge engolindo pessoas enquanto emite miados "fofos". Hoje, com uso de programas, somos facilmente capazes de criar qualquer coisa que nos venha à cabeça, até as mais ilógicas, e o cineasta usa essa alegoria justamente para sugerir que, ao expandirmos demais os limites da criação, corremos o risco de perder o significado das coisas. E isso vale inclusive para o próprio universo do cinema, que de uns tempos para cá vêm sendo alvo de discussões acaloradas a respeito do uso de inteligência artificial em filmes.


No fim das contas, Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra não é apenas uma sátira futurista, mas quase um espelho distorcido do presente. Sim, nós estamos vivendo dentro de uma distopia imaginada pelos maiores escritores de ficção científica do século passado, não dá mais para negar. Também não podemos ignorar que estamos todos, de alguma maneira, "zumbificados", vivendo presos a um ciclo de estímulos mediados por telas que consultamos compulsivamente. E falo isso como uma autocrítica, já que me enxergo profundamente dentro deste padrão, assim como, provavelmente, você que está lendo esse texto. E talvez seja justamente por esse reconhecimento incômodo que o filme permanece ecoando por muito tempo após assisti-lo.

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