Dirigido pelo sul-coreano Na Hong-jin, Hope: Primeiro Impacto (Hope) estreou no Festival de Cannes deste ano e deu muito o que falar ao concorrer à Palma de Ouro. De fato, trata-se de um filme bastante diferente daquilo que estamos acostumados a ver em um dos festivais mais prestigiados do cinema mundial, diante dos olhares da crítica mundial. Considerado o longa-metragem mais caro já produzido na Coreia do Sul, a obra aposta em muita ação, criaturas monstruosas e efeitos visuais grandiosos, aproximando-se da estética dos grandes blockbusters de Hollywood.
A trama se passa em um vilarejo fictício de aparência bucólica, chamado de Hope Harbor, localizado em uma região desmilitarizada na fronteira entre as duas Coreias. Em um dia aparentemente corriqueiro, o chefe de polícia Bum-seok (Hwang Jung-min) recebe a notícia de que um grupo de caçadores encontrou um boi morto e mutilado no meio de uma estrada. O que restou do animal apresenta profundas marcas de garras, levando os homens a suspeitar do ataque de um tigre vindo da floresta. No entanto, ao chegar à fazenda de onde o bovino havia saído, eles encontram novos sinais de destruição e os restos mortais do fazendeiro, indicando que a ameaça é muito maior do que imaginavam.
Ao retornar à cidade, Bum-seok encontra corpos decapitados espalhados pelas ruas estreitas, além de inúmeros prédios destruídos. Durante aproximadamente cinquenta minutos, o filme constrói uma atmosfera sufocante de medo e mistério, e essa é, de longe, sua melhor parte. É impossível não ficar absorto a cada passo dos personagens, enquanto tentamos imaginar que tipo de ameaça estão enfrentando. Nesse primeiro momento, vemos apenas pessoas arremessadas violentamente, corpos mutilados e um rastro de destruição assustador, enquanto os moradores tentam reagir com armas que se mostram completamente insuficientes diante do perigo.
Na segunda metade, temos finalmente o primeiro vislumbre do monstro. E, de fato, sua aparência foge completamente do esperado. Não vou dar spoilers do seu aspecto, pois acho que o fator surpresa é importante, mas quando o grupo de moradores descobre uma possível nave especial cravada na floresta, é possível concluir que ele não somente venho de outro planeta, como também não está sozinho. Provido de uma força descomunal e uma altura que lembra os Na'vi, de Avatar, a criatura permanece envolta em mistério, e pouco sabemos sobre suas origens ou motivações.
Além do policial Bum-seok, duas personagens femininas desempenham papéis fundamentais na trama: a policial Sung-ae (Jung Ho-yeon) e a chefe do centro médico de Hope (Hwang Seok-jeong), responsável pela autópsia do primeiro monstro capturado e morto. Sua participação é crucial para que os moradores comecem a compreender a biologia da criatura e, consequentemente, a dimensão da ameaça que enfrentam. Outro aspecto interessante é o humor peculiar do filme, que encontra espaço para piadas mesmo em meio ao caos. Os personagens estão longe de ser heróis invencíveis e tampouco tomam sempre as melhores decisões, e é justamente essa humanidade que confere graça a situações que, em outras circunstâncias, seriam apenas aterrorizantes.
O principal problema de Hope, porém, está em suas sequências finais, quando a narrativa se prolonga muito além do necessário. Embora as cenas de perseguição sejam visualmente impressionantes, elas acabam se tornando excessivamente longas e cansativas, presas a uma dinâmica repetitiva que compromete o ritmo da obra. Para completar, o desfecho deixa diversas questões em aberto e transmite a impressão de que o diretor pretende expandir esse universo em possíveis continuações. A possibilidade de uma franquia não seria, por si só, um problema, mas a maneira como o filme termina faz com que a história pareça incompleta.




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