quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Crítica: Dead Man's Wire (2026)


Depois de seis anos afastado das telas, Gus Van Sant, diretor de Gênio Indomável (1997) e Milk: A Voz da Igualdade (2008), retorna em grande estilo com Dead Man's Wire, um thriller inspirado em um acontecimento real que paralisou a cidade de Indianapolis em fevereiro de 1977. Na ocasião, um homem, sentindo-se lesado por uma grande corporação de hipotecas, invadiu a sede da empresa e fez de refém o presidente, com a intenção de não somente reaver o dinheiro perdido por ele, mas também obter um pedido de desculpas público feito pelo dono.


A trama começa acompanhando os preparativos de Anthony Kiritsis (Bill Skarsgaard) para uma reunião marcada na empresa Meridian Mortgage Company. Após estacionar seu carro em frente ao prédio, ele entra meio desajeitado, carregando uma caixa retangular de papelão debaixo do braço. Anthony cumprimenta a todos com certa intimidade, e logo percebemos que ele costuma ir ao local com frequência, o que faz com que ninguém desconfie de suas verdadeiras intenções. Só quando finalmente fica a sós com o presidente, Richard O. Hall (Dacre Montgomery), ele revela uma espingarda calibre 12 que estava escondida na caixa. O verdadeiro alvo da ação era o dono da empresa, M. L. Hall (Al Pacino), mas convenientemente ele tirou uns dias de férias na Flórida, e restou ao filho lidar, cara a cara, com o homem enraivecido pelo sentimento de traição.

Com a arma presa ao pescoço de seu refém por um fio sensível, que a faria disparar sob qualquer movimento brusco, Anthony assume total controle da situação, mesmo após um enorme contingente policial circundar o local e iniciar uma tentativa de negociação. Em uma clara homenagem aos thrillers dos anos 1970, lembrando especialmente o clássico Um Dia de Cão, Van Sant constrói a tensão de forma paciente e progressiva, dando a sensação de que qualquer gesto em falso poderia resultar em uma tragédia.


O grande trunfo do filme, no entanto, não está apenas na mecânica do suspense, mas na complexidade moral de seu protagonista. Anthony não é um criminoso habitual, nem nunca foi, e esta é a grande questão do filme: até que ponto um homem comum pode abrir mão de seus princípios quando se sente esmagado por uma estrutura que considera injusta? Ele não queria ferir ninguém, queria apenas reaver o que, segundo ele, era seu por direito. Com a chegada da imprensa, ele vê na exposição midiática uma oportunidade de transformar seu ato em denúncia pública, o que talvez facilitaria a resolução desejada. Bill Skarsgaard apresenta um personagem contido e 

Quando a tensão se desloca para o modesto apartamento de Tony, após ele levar Richard consigo, o episódio assume contornos de espetáculo. O cerco policial ganha audiência nacional, e é nesse contexto que surge Fred Temple (Colman Domingo), um radialista influente na cidade e ídolo pessoal de Anthony. Por meio das conversas telefônicas com Fred, suas demandas passam a ecoar com maior clareza, humanizando-o diante do público e, ao mesmo tempo, ampliando a pressão sobre todos os envolvidos.


Van Sant conduz essa escalada com precisão cirúrgica, interessado menos na ação em si e mais nos dramas emocionais que ela revela. Dead Man’s Wire é, acima de tudo, um estudo sobre ressentimento, dignidade e a perigosa linha que separa o cidadão comum do homem disposto a tudo para ser ouvido. Sem recorrer a pirotecnias, o diretor transforma um episódio histórico em um drama tenso e inquietante.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Crítica: A História do Som (2026)


Quando um filme reúne dois dos atores mais badalados de Hollywood na atualidade em um drama de época, e que ainda por cima promete abordar o poder transformador da música, é inevitável que ele gere boas expectativas. É o que aconteceu com A História do Som (The History of Sound), novo filme do cineasta sul-africano Oliver Hermanus (de Viver, 2022), que tem sim os seus momentos interessantes, mas que infelizmente frustra por entregar muito menos do que prometia.


A trama nos apresenta Lionel Worthing, um jovem que, desde a infância, demonstra uma sensibilidade quase sobrenatural para os sons do mundo. Os ruídos da natureza, as inflexões da voz humana e as melodias que ecoam nos lugares mais improváveis, tudo é absorvido por ele de forma intensa e singular. Em 1917, já adulto (vivido por Paul Mescal), Lionel recebe uma bolsa para estudar no Conservatório de New England, em Boston, deixando pela primeira vez a fazenda da família no Kentucky. E é nesse novo e desafiador ambiente que ele conhece David White (Josh O'Connor), um cantor igualmente fascinado pela música, com quem estabelece uma conexão imediata.

A Primeira Guerra Mundial interrompe o florescer dessa relação, quando David precisa servir o exército. O vínculo entre os dois passa a sobreviver por meio de cartas e encontros esporádicos, até que, com o retorno de David para casa, o romance enfim ganha forma. Juntos, eles decidem viajar pelo interior dos Estados Unidos, com o projeto de captar canções populares em cilindros de cera utilizados para fazer gravações na época. A ideia era reunir uma coletânea de músicas folk, afim de preservar a memória cultural do país e de sua gente, antes que as mesmas se perdessem no tempo.

É justamente neste ponto que o filme encontra seus melhores momentos, ao mostrar com sensibilidade o quanto a música pode ser um instrumento vivo da memória coletiva. As sequências em que Lionel e David descobrem novas vertentes sonoras, novas vozes e realidades distintas, são carregadas de uma beleza melancólica e ao mesmo tempo engrandecedora. No entanto, a proposta bonita e contemplativa esbarra em um ritmo excessivamente arrastado, fazendo com que o filme perca sua força. A narrativa parece hesitar em aprofundar os conflitos emocionais ou dar maior densidade dramática à relação dos dois personagens, e o romance, embora delicado, carece de tensão e uma certa urgência.


A reta final é tocante, e reforça a ideia central de mostrar o poder da música como guardiã de memórias e sentimentos, mas é pouco para elevar o conjunto da obra. As atuações são sólidas, a reconstrução de época é cuidadosa e a trilha sonora, elemento vital da narrativa, é, sem dúvida, o grande trunfo do filme. E ainda que o impacto final fique aquém do esperado e a história não reverbere com a intensidade que o seu potencial sugeria, há beleza suficiente em sua construção musical para que a experiência, sobretudo para os amantes da música, ainda seja proveitosa.

Crítica: O Caso dos Estrangeiros (2026)


O tema da imigração nunca esteve tão latente, e o cinema contemporâneo tem acompanhado essa urgência global de perto. Diversas produções recentes abordaram a questão com a seriedade e a sensibilidade necessária, mas infelizmente O Caso dos Estrangeiros (I Was a Stranger) segue o caminho oposto ao entregar um dramalhão carente de sutileza, feito sob medida para manipular as emoções e as lágrimas do público a qualquer custo, sem a devida complexidade narrativa.


O longa de estreia do diretor Brandt Anderson é apresentado em capítulos, e inicia em 2023, com a Dra. Amira Homsi (Yasmine Al Massri) chegando ao hospital onde trabalha em Chicago. Através das memórias da personagem, voltamos oito anos no tempo, quando ela ainda vivia com a família em Aleppo, capital da Síria. Na ocasião, o país estava em meio ao caos da guerra, e ela era responsável pela triagem de pacientes de ambos os lados feridos no combate. Na noite de celebração do seu aniversário, a casa da família de Amira acaba destruída por uma bomba, onde apenas ela e sua filha pequena sobrevivem.

A partir desta tragédia, Amira busca desesperadamente fugir do país. No caminho, mãe e filha cruzam com figuras que simbolizam as diferentes engrenagens do fenômeno migratório. Primeiramente, elas são ajudadas por um soldado, Mustafah (Yahya Mahayni), que parece ser um respiro de empatia em meio a outros soldados inescrupulosos. Em tese, ele representa o dilema moral de quem serve expressamente ao governo de Bashar al-Assad, mas não concorda com suas ideias. Em seguida, ficam nas mãos de um contrabandista chamado Marwan (Omar Sy, o nome mais conhecido do elenco), que viu na necessidade dos refugiados uma oportunidade de lucro financeiro. Por fim, chegam ao capitão Stravos (Constantine Markoulakis), cansado emocionalmente de testemunhar o fluxo incessante de refugiados no Mediterrâneo, mas sempre disposto a ajudar.

A jornada delas é repleta de dificuldades, o que me fez lembrar imediatamente de outro filme que toca neste tema delicado, Green Border, da polonesa Agnieszka Holland. No entanto, enquanto o filme polonês constrói uma narrativa linear sufocante, que aprisiona o espectador em uma tensão crescente, aqui a fragmentação em capítulos enfraquece o envolvimento emocional. Sempre que um núcleo dramático começa a ganhar força, a narrativa é interrompida abruptamente para acompanhar outro personagem, e isso acontece sucessivamente. O resultado é uma colcha de retalhos dramática que impede o aprofundamento nas histórias contadas, transformando traumas complexos em episódios apressados.


Outro problema central está na ausência de contextualização política. A guerra civil síria surge quase como pano de fundo abstrato, e sem uma mínima ancoragem histórica e geopolítica do conflito e do êxodo que ele causou, o drama perde densidade, parecendo apenas um estudo vazio de caso e um mero entretenimento da dor. A crise migratória é, de fato, uma questão universal, mas ignorar suas especificidades enfraquece o impacto. Ao optar por atalhos sentimentais e por uma estrutura fragmentada, O Caso dos Estrangeiros transforma um tema urgente em um melodrama superficial. Em vez de provocar reflexão, o filme se contenta com a emoção imediata, e ao fazer isso, desperdiça a oportunidade de oferecer um retrato verdadeiramente humano e politicamente consciente de uma das maiores tragédias contemporâneas.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Crítica: The Last Viking (2025)

Alguns atores e diretores parecem ter nascido para trabalhar juntos. É o caso do cineasta dinamarquês Anders Thomas Jensen e do ator Mads Mikkelsen, cuja parceria prolífica se consolidou como uma das mais interessantes do cinema atual. Desde Flickering Lights (2000), os dois já estiveram juntos em dez projetos, tanto com Jensen na direção como também colaborando apenas no roteiro. O humor ácido do diretor sempre casou perfeitamente com a excentricidade do ator em cena, e se Jensen sempre soube criar personagens "quebrados", Mads sempre soube interpretá-los com muita intensidade. Agora em O Último Viking (The Last Viking), essa sintonia não poderia ser diferente.

A trama acompanha Anker, interpretado por Nikolaj Lie Kaas, outro parceiro de longa data do diretor. Após roubar uma grande quantia em dinheiro, ele esconde a bolsa em um depósito, mas acaba preso antes de conseguir recuperá-la. Antes de ser capturado, porém, ele pede ao irmão, Manfred (Mikkelsen), que enterre o dinheiro nas proximidades da casa onde eles cresceram. Quinze anos depois, ao deixar a prisão, Anker reencontra o irmão e planeja viajar até o local em sua companhia, mas descobre que a missão de reaver o montante será bem mais complexa do que ele imaginava.

Desde a infância, Manfred sofre de um transtorno raro de personalidade. Agora, por exemplo, ele não aceita mais ser chamado pelo próprio nome: acredita ser John Lennon, o lendário integrante dos Beatles, e exige ser tratado como tal. O delírio, que poderia ser explorado apenas como gag cômica, ganha contornos mais densos à medida que o filme revela o passado dos irmãos. Criados sob a tirania de um pai violento e instável, ambos carregam marcas profundas de abusos físicos e, sobretudo, psicológicos. Quando Manfred ainda criança passou a acreditar ser um viking da mitologia nórdica, tornou-se alvo de chacotas na escola e de repressões ainda mais severas em casa. O pai o culpava por suas “loucuras” e responsabilizava Anker por não conseguir “controlá-lo”, o que gerava uma espiral de violência severa.

Esses traumas moldaram dois homens radicalmente distintos, mas ligados por um afeto silencioso e resiliente. É nesse equilíbrio entre absurdo e dor que Jensen demonstra sua habilidade narrativa. Como já é de praxe em sua filmografia, temos a adição de vários personagens secundários que ajudam a formar o arco do absurdo. Entre eles, três fugitivos de uma clínica psiquiátrica que se juntam ao grupo na antiga casa da família, que agora é um Airbnb. Dois deles possuem a mesma dissociação de Manfred: um acredita que é Paul McCartney e George Harrison (os dois ao mesmo tempo), enquanto outro acredita ser Ringo Star. De repente, os Beatles estão "reunidos" novamente, o que serve para dar um novo sentido à vida de Manfred (ops, de John) e um sentimento de pertencimento que ele, talvez, jamais havia sentido antes.

O que poderia soar como uma sucessão de esquetes nonsense ganha coesão graças ao olhar compassivo de Jensen. O humor é afiado, por vezes até politicamente incorreto, mas há sempre uma intenção dramática por trás do riso. Paralelamente, a tensão em torno da busca pela mala de dinheiro, intensificada pela perseguição implacável que Anker passa a sofrer de pessoas do seu passado a quem ele ficou devendo, impede que a narrativa perca fôlego, misturando o "caos cômico" com um suspense policial enérgico. Com personagens carismáticos e um senso de absurdo cuidadosamente orquestrado, O Último Viking reafirma o cinema de Anders Thomas Jensen em sua essência máxima: tragicômico, provocador e humano.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Crítica: Extermínio: O Templo dos Ossos (2026)


Vou começar sendo bem sincero com vocês: eu nunca fui fã da franquia de terror e ficção científica Extermínio, criada por Danny Boyle e Alex Garland em 2002, e depois da enorme decepção que foi o último filme, lançado em 2025, eu prometi a mim mesmo que não perderia mais tempo com novas sequências. Dito isso, que gratificante foi quebrar essa promessa e assistir este quarto capítulo da saga, que não apenas revitaliza a franquia, como a reinventa sob o olhar ousado da diretora Nia DaCosta (de A Lenda de Candyman).


Extermínio: O Templo dos Ossos é uma sequência direta de Extermínio: A Evolução, e começa acompanhando uma gangue sádica, assassina e ultraviolenta, que usa estranhas perucas loiras e é liderada pelo perturbador Jimmy Crystal (Jack O'Connell). Ele desenvolveu toda uma teologia psicótica e delirante em torno da ideia de ser o próprio filho de Satã, crença que legitima seu domínio absoluto sobre seguidores submissos, que são capazes das maiores atrocidades em nome desta fé cega e distorcida.

O ritual de ingresso no grupo é brutal: o candidato deve lutar até a morte contra um membro já estabelecido, tomando seu lugar caso sobreviva. É assim que o jovem Spike (Alfie Williams), visto ao final do filme anterior deixando sua comunidade após a morte da mãe, é absorvido pela seita. Após vencer um combate sangrento em um ginásio abandonado, ele abandona seu nome e passa a se chamar Jimmy, assim como todos os demais. A partir daí, Spike acompanha a jornada sanguinária do grupo, que não teme os infectados e muito menos os vivos que cruzam o seu caminho. Isso até eles encontrarem o excêntrico Dr. Ian Kelson (Ralph Fiennes), responsável por erguer um monumental templo feito de ossos e crânios humanos.


Se Jimmy Crystal é o personagem mais fascinante da trama, o Dr. Kelson é o mais instigante. Pouco sabemos sobre seu passado ou sobre como ele conseguiu construir um santuário macabro em meio ao caos, mas pistas visuais, como fotografias com a esposa e discos de vinil dos anos 80, revelam que a memória ainda é um elemento central em sua existência solitária. Disposto a estudar os infectados a fundo, Kelson se dedica a observar um zumbi "Alfa" (uma subespécie evoluída que possui mais força e inteligência do que os infectados normais), a quem ele "carinhosamente" batizou de "Sansão".

A criatura demonstra força suficiente para partir um corpo humano ao meio, como vemos em uma cena inicial bastante impactante. No entanto, sempre que se aproxima para atacar o Dr. Kelson, é contida por dardos de morfina que a tornam inofensiva o bastante para as interações conduzidas a seguir pelo médico. Nestas sequências, o filme alcança um tom surpreendentemente lírico, mas ao mesmo cômico, e são através destas interações que o Dr. Kelson vai resgatando vestígios do que a criatura era antes da infecção.


Não se trata de humanizar os zumbis, mas de mostrar que há uma linha tênue entre consciência e instinto, razão e brutalidade. E é justamente aí que reside a maior força do filme: em um universo dominado por zumbis, os vilões mais aterradores continuam sendo os homens. O roteiro não está interessado apenas na violência física dos ataques, mas nas estruturas de poder, fé e manipulação que emergem em uma sociedade colapsada. Afinal, o que sobra quando o mundo "acaba"? Ainda há espaço para empatia? Para moralidade? Para humanidade?

Nia DaCosta aposta em uma abordagem mais intimista, mas não suaviza a brutalidade. Este é, sem dúvida, o capítulo mais sangrento da franquia, onde vemos sem filtro cabeças arrancadas, cérebros devorados, e rios de sangue. No entanto, a violência nunca soa gratuita, ela só reforça a degradação moral daquele universo. Mais importante ainda: este é o filme que entrega os personagens mais complexos e ricos da série. Tanto Ralph Fiennes como Jack O'Connell possuem um magnetismo impressionante quando estão em tela, sendo impossível ficar indiferente a qualquer gesto deles. A calma quase irritante do doutor contrasta com a fúria messiânica de Jimmy, criando um embate ideológico tão poderoso quanto físico.


Ao som da banda Iron Maiden, o clímax do filme explode em uma daquelas cenas antológicas que marcam o cinema, e que mostra, acima de tudo, a potência de Fiennes como um ator singular e absurdamente versátil. Se antes eu estava pronto para abandonar a franquia, agora me vejo ansioso pelo próximo capítulo. Nia DaCosta conseguiu não apenas reinventar a mitologia por trás dos filmes, mas consolidar um ponto de virada crucial na história, mostrando pela primeira vez em muito tempo, que este universo ainda tem algo relevante a dizer.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Crítica: Isto Ainda Está de Pé? (2026)

Em seu terceiro longa-metragem como diretor, Bradley Cooper se propõe a observar com sensibilidade as nuances do fim de um relacionamento amoroso, focando menos no rompimento em si e mais sobre o que vem depois: a autodescoberta, a reconstrução individual e o delicado processo de reorganizar a própria identidade quando o “nós” deixa de existir depois de muitos anos, não apenas dos envolvidos diretos, mas também daqueles que orbitam a dinâmica do casal.

A trama gira em torno de Alex Novak (Will Arnett) e Tess Novak (Laura Dern), um casal com dois filhos que chega a conclusão de quem não funcionam mais juntos. É interessante a maneira como Cooper mostra esta separação, que acontece quase casualmente, enquanto ambos se arrumam para sair de casa, numa espécie de decisão mútua, sem dramas, explosões e amarguras. É o retrato de um casamento que já teve muito amor mas que se perdeu nas entrelinhas da complexa vida à dois, e cuja decisão de se separar parece, no momento, o ato mais maduro possível a ser tomado.

No entanto, a ficha demora a cair. Após uma tarde juntos, Alex quase embarca no mesmo transporte que Tess, um hábito automático que denuncia o quanto a rotina compartilhada anteriormente ainda está muito viva. Os filhos também os enchem de perguntas, e as repostas são sempre as mesmas, protocolarmente otimistas, de vai ficar tudo bem, e de que é o melhor para todos. O clima amigável entre os dois suaviza o impacto para os pequenos neste processo, pois não há aquela ruptura drástica na vida familiar, mas isso não quer dizer que seja fácil e que não haja dor, ainda que silenciosa.

Tentando lidar com o vazio recém-instaurado, Alex entra por acaso em um bar de stand-up e decide colocar seu nome na lista de apresentações, inicialmente apenas para não precisar pagar a entrada. O improviso diante do microfone sobre seu casamento de vinte e seis anos e o divórcio inesperadamente arranca risadas genuínas da plateia, e dele próprio. A partir daí, a comédia torna-se uma válvula de escape para ele e, pouco a pouco, um novo propósito. Tess, por sua vez, reencontra no vôlei, sua antiga paixão, uma forma de reconectar-se consigo mesma. Enquanto ele transforma frustração em humor, ela redescobre o corpo e o movimento como formas de expressão. São trajetórias paralelas de reconstrução que avançam até que as próprias escolhas dos personagens os coloquem novamente diante um do outro.


O filme não tenta ser maior do que é capaz, e acho que este é o seu ponto positivo. Diferentemente de Maestro, obra em que Cooper parecia empenhado em demonstrar virtuosismo técnico e ambição dramática em busca de estatuetas no Óscar, aqui o diretor adota um tom mais contido, quase doméstico. O roteiro é simples, intimista e despretensioso, o que pode ser visto tanto como qualidade quanto como limitação. 

Particularmente, as atuações não me convenceram, sobretudo a de Arnett, que parece oscilar entre o carisma natural e uma certa superficialidade. Embora a proposta seja a de um drama leve e honesto, o roteiro acaba se tornando excessivamente morno, recorrendo a clichês já bastante explorados pelo gênero, especialmente em sua reta final. O resultado é um filme bem-intencionado, mas que raramente ultrapassa a zona de conforto, permanecendo de pé, sim, mas sem nunca realmente alçar voo.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Crítica: Nuremberg (2025)

Entre 1945 e 1946, logo após o fim da Segunda Guerra Mundial, oficiais do alto escalão nazista foram levados a julgamento por um Tribunal Militar Internacional formado por juízes dos países Aliados (Estados Unidos, França, Grã-Bretanha e União Soviética), em um dos julgamentos mais desafiadores, complexos e memoráveis da história. Sob acusações de crimes de guerra e principalmente crimes contra a humanidade, vinte e dois oficiais foram julgados em um primeiro momento, entre eles o sucessor direto de Hitler, Hermann Göring.

Dirigido por James Vanderbilt (de Conspiração e Poder, 2015), Nuremberg se inicia logo após as tropas soviéticas tomarem Berlim. Hitler e Goebbels já haviam cometido suicídio, mas figuras centrais do regime acabam sendo capturadas, entre elas Göring (Russell Crowe). Sua prisão funciona como o eixo dramático da narrativa, especialmente a partir de seus encontros com o psiquiatra americano Douglas Kelley (Rami Malek), encarregado de avaliá-lo psicologicamente enquanto ele aguarda julgamento.

A relação entre os dois se transforma em uma amizade tão improvável quanto inquietante, sustentada por interesses claramente distintos. Göring demonstra confiança absoluta de que escapará das acusações e retornará à sua família, usando as conversas não apenas para reafirmar essa convicção, mas também para manipular Kelley como intermediário na sua relação com a esposa e a filha. Kelley, por sua vez, vê nessas interações a oportunidade de compreender os mecanismos psicológicos que permitiram tamanha brutalidade por parte dos líderes nazistas, com a ambição de escrever um livro sobre o tema.

O que começa como uma avaliação clínica, logo se revela um truque orquestrado pelos oficiais americanos. Kelley descobre que sua verdadeira função é, na verdade, extrair informações estratégicas sobre como os réus se defenderiam no tribunal, e diante desse dilema moral, ele é forçado a abrir mão de princípios que construiu ao longo de sua vida profissional. Ainda que tal conduta fosse, em qualquer outro contexto, moralmente condenável, o filme habilmente provoca o espectador ao questionar se há espaço para ética tradicional quando se está lidando com mentes por trás de um genocídio. Göring, em especial, age com um cinismo perturbador, fingindo ignorância sobre os horrores dos campos de concentração, apesar da posição central que ocupava no regime.

Nos minutos finais, Nuremberg assume a forma de um clássico filme de tribunal, mas evita cair em clichês. Quando Vanderbilt opta por inserir imagens reais do Holocausto, com montanhas de corpos empilhados, corpos desfigurados e evidências incontestáveis da barbárie, o impacto é devastador. São registros que, na vida real, foram exibidos pela primeira vez durante o próprio julgamento, e que mesmo já exaustivamente vistos em documentários e outras obras de ficção, continuam a ferir como se fossem inéditos.

O filme estabelece paralelos inquietantes com o cenário político contemporâneo, especialmente com a ascensão de discursos de ódio e do extremismo ao redor do mundo. Em um dos momentos mais perturbadores, Göring, ao ser indagado sobre o que lhe fez se tornar um seguidor fiel das ideias nazistas, afirma, com um sorriso irônico, que “Hitler fez todos se sentirem alemães novamente”. A frase arrepia, não apenas por responder a eterna pergunta sobre como uma nação inteira permitiu que aquilo acontecesse, mas por ecoar discursos atuais, funcionando como um alerta sombrio de que ideias parecidas precisam ser combatidas antes que seja tarde demais.

Russell Crowe entrega uma atuação sólida e dominante, compondo um Göring manipulador e perigosamente carismático, que mantém sua postura de superioridade mesmo atrás das grades. Se Crowe é destaque, o mesmo não posso dizer de Malek, que não consegue alcançar a seriedade que o personagem necessitava, com tiques e cacoetes irritantes que se sucedem o filme inteiro. O elenco de apoio cumpre bem sua função, com destaque para Michael Shannon como o promotor Robert H. Jackson, John Slattery como o comandante da prisão e Leo Woodall no papel do tradutor.

Por fim, Nuremberg não é apenas um filme histórico ou um drama jurídico bem executado, mas um lembrete incômodo de que o mal raramente se apresenta como monstruoso à primeira vista. Ele se disfarça de discurso civilizado, de carisma e de promessas de pertencimento e prosperidade. Ao revisitar um dos julgamentos mais importantes do século XX, o filme reafirma que a memória é uma ferramenta essencial para impedir que os erros mais brutais da humanidade se repitam.

Crítica: Marty Supreme (2026)

Primeiro filme solo do diretor Josh Safdie sem o irmão Benny, cuja parceria ficou conhecida por filmes como Bom Comportamento (2017) e Jóias Brutas (2019), Marty Supreme se baseia levemente na história real de Marty Reisman, um excêntrico jogador de tênis de mesa que, nos anos 1950, transformou a própria carreira em espetáculo ao usar estratégias pouco ortodoxas para atrair atenção, investidores e notoriedade.

O filme já começa nos apresentando ao seu protagonista, Marty Mouser (Timothée Chalamet), um homem errático, imoral e sem escrúpulos, que é capaz de qualquer coisa para alcançar seus objetivos. Trabalhando como vendedor em uma loja de sapatos de Nova Iorque, ele está tentando juntar dinheiro para poder disputar um campeonato de tênis de mesa importante na Inglaterra que, em sua cabeça, não é uma possibilidade de ascensão, mas uma confirmação inevitável da sua superioridade. Ele não acredita que ganhará o torneio, ele tem certeza. Completamente egocêntrico, manipulador, e movido por uma autoconfiança que beira o delírio, Marty está obcecado em tornar o tênis de mesa um grande espetáculo nos Estados Unidos, e para isso, não vê problema nenhum em atravessar pessoas, situações e limites éticos com a mesma rapidez com que golpeia a bola na mesa.

Safdie apresenta um personagem caótico, com uma urgência tão caótica quanto, que precisa correr contra o tempo para tentar resolver sua vida. Dito isso, é um filme ligado no 220v, sem paradas para respirar e sem espaço para contemplação. E essa energia funciona até certo ponto, pelo menos para prender a atenção do espectador. O problema é que muita coisa na história parece aleatória, desordenada e pouco explicada. Em resumo, o que vemos é um amontoado de situações extravagantes que por vezes se atropelam e não se conectam, criando uma sensação de que estamos acompanhando apenas fragmentos de uma história, e não uma progressão orgânica.

Não dá para negar, no entanto, que o filme tem seus momentos de inspiração. Um dos pontos que acho interessante, é o fato de trazer para o centro da trama um esporte que não tem tanta aclamação do público ocidental, mas que é bem interessante de acompanhar pela sua riqueza técnica. Recentemente o tênis de mesa ficou mais conhecido por nós brasileiros por causa de Hugo Calderano, que fez história ao chegar nas semifinais dos jogos olímpicos de Paris em 2024 e por ganhar a Copa do Mundo do esporte em 2025, sendo o primeiro atleta das Américas a conquistar tal feito. O filme, nesse sentido, acerta ao explorar o potencial cinematográfico das partidas, captando a velocidade e a tensão dos duelos.

A ambientação da Nova Iorque dos anos 1950 também merece destaque. As cenas externas ajudam a consolidar o clima de época, reforçando a atmosfera de um país em transformação, onde oportunismo e espetáculo caminham lado a lado. Mas o verdadeiro trunfo de Marty Supreme é Timothée Chalamet. Em uma performance intensa e fisicamente inquieta, o ator confere magnetismo a um personagem essencialmente detestável. Marty é irritante, vaidoso e moralmente questionável, mas ainda assim, impossível de ignorar. Chalamet equilibra carisma e repulsa com precisão, entregando a sua melhor atuação até então na carreira, e que muito possivelmente irá lhe tender o seu primeiro Oscar daqui há um mês.

No fim das contas, Marty Supreme é um filme que vibra mais pela energia do que pela coesão, o que de forma alguma o faz ser ruim, apenas distante de ser intocável. Há talento, há personalidade e há momentos de verdadeiro impacto, mas falta a amarração que transforma intensidade em grandeza. O fato é que ele confirma o talento de Josh Safdie como cronista de figuras obsessivas à beira do colapso, mas também evidencia que, de certa forma, faz falta o contraponto criativo do irmão.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Crítica: The Plague (2026)


É comum nos abraçarmos à nostalgia e lembrarmos com certo carinho da adolescência, mas uma coisa é certa: esta fase da vida não é nada fácil. Além dos hormônios à flor da pele e das inseguranças constantes, somos obrigados a lidar com a descoberta cruel de que o mundo fora das quatro paredes do nosso quarto não é nem um pouco acolhedor. Tudo isso enquanto moldamos a nossa própria personalidade, sem termos a verdadeira dimensão de que cada passo dado neste momento irá ecoar pela vida inteira.


Em seu filme de estreia, Charlie Polinger nos apresenta um thriller psicológico que aborda uma questão recorrente e dolorosa nesta fase complexa da vida: o bullying escolar. A trama se passa em 2003, e acompanha um grupo de jovens que vive em uma espécie de internato para meninos, todos alunos de polo aquático do professor Wags (interpretado por Joel Edgerton, que também é o produtor do longa). Entre eles está o recém chegado Ben (Everett Blunck), um garoto de 12 anos, sensível e meio desengonçado, que tenta desesperadamente se encaixar no grupo. Não sabemos muito sobre ele, apenas que ele se mudou há pouco com a mãe para a nova cidade após a separação dos pais, e seu sotaque diferente imediatamente acaba sendo motivo de risadas e deboches dos outros meninos.

No centro da dinâmica cruel do grupo está Jake (Kayo Martin), um líder informal. Com um rosto angelical, mas uma maldade intrínseca no olhar, ele aparentemente dita as regras, enquanto os demais apenas seguem suas ideias, sem pensar nas consequências dos seus atos. Um dos alvos preferenciais da violência psicológica de Jake é Eli (Kenny Rasmussen), um garoto tímido, solitário e acima do peso, que sofre de alergias na pele que nunca cicatrizam. A partir disso, o grupo cria o boato de que ele carrega a “peste”, uma doença supostamente contagiosa transmitida a qualquer um que toque em sua pele. A mentira funciona como uma sentença: Eli passa a ser sistematicamente isolado, ridicularizado e desumanizado.


É nesse ambiente sufocante que se estabelece o principal conflito de Ben. Diferente dos outros, ele demonstra empatia e se compadece do sofrimento de Eli, mas o medo de se tornar a próxima vítima o paralisa. Para sobreviver, acaba compactuando com as agressões, mesmo que isso o corroa por dentro. Polinger constrói com inteligência a ambiguidade do personagem, inclusive quando mostra o próprio Ben se questionando se a tal “peste” não seria real, num reflexo cruel de como a repetição de uma ideia pode distorcer a percepção da realidade. Essa tensão cresce até o momento inevitável em que Ben decide tomar uma posição à favor de Eli, pagando um preço alto e brutal por isso.

O filme escancara como crianças e adolescentes podem ser impiedosos, especialmente quando agem em grupo, protegidos pelo anonimato coletivo e pela ausência de consequências imediatas. O que torna o filme ainda mais perturbador é o quanto essa violência soa palpável e reconhecível. Não se trata de exagero cinematográfico, mas de um retrato incômodo de comportamentos que continuam se repetindo fora da tela. Casos recentes, como o do cão Orelha, em Santa Catarina, reforçam essa lógica cruel: alguém inicia o ato de violência, por pura maldade e psicopatia, e os demais vão na onda, muitas vezes por covardia.


Ao transformar o bullying em um verdadeiro horror psicológico, Polinger não apenas denuncia essa dinâmica, mas também nos obriga a encarar uma pergunta desconfortável: quantas vezes, por medo de exclusão, escolhemos o silêncio, ou ainda pior, a cumplicidade? Por fim, The Plague sugere que o verdadeiro contágio não é a “peste” inventada pelos garotos, mas a violência que se espalha quando ninguém tem coragem de interrompê-la, e é justamente essa constatação que torna sua experiência tão angustiante.

Crítica: A Empregada (2026)

Baseado no livro homônimo da escritora Freida McFadden, um fenômeno editorial que conquistou uma legião de fãs, A Empregada (The Housemaid) é um suspense que, na teoria, promete abordar temas importantes como violência doméstica, abuso psicológico e relações tóxicas mantidas por aparência, mas que, na prática, derrapa em um roteiro raso, superficial e cheio de reviravoltas que só funcionam se você morou a vida inteira em uma caverna e nunca assistiu um filme de suspense antes.

O filme começa nos apresentando a Millie (Sydney Sweeney), uma jovem mulher que está passando por dificuldades e consegue ser selecionada para ser a nova empregada na mansão de uma família rica. É Nina Winchester (Amanda Seyfried), a dona da casa, que lhe entrevista, lhe mostra os aposentos e sobretudo lhe dita as regras. Entre elas, a de que Millie deve morar no local, em um quartinho pequeno porém confortável do sótão. 

O cenário inicial de estabilidade logo se desfaz quando Nina passa a tratar a nova funcionária com uma hostilidade crescente. Além de agressiva, ela a humilha constantemente e constrói mentiras cruéis a seu respeito, especialmente para o marido, Andrew (Brandon Sklenar), que surge como a figura serena e racional da casa. É ele quem explica a Millie que Nina sofre de graves distúrbios psicológicos, usando isso como justificativa para seu comportamento abusivo. Precisando do emprego por questões externas que vão muito além do dinheiro, Millie precisa aguentar a pressão e seguir firme, mesmo sofrendo humilhação atrás de humilhação. Ao mesmo tempo, Andrew se mostra acolhedor e protetor, dando início a uma dinâmica que lentamente descamba para um triângulo amoroso tão óbvio quanto artificial.

Não tendo lido o livro, não cabe a mim fazer uma comparação direta com o material original, mas enquanto obra cinematográfica, A Empregada se sustenta sobre reviravoltas preguiçosas e soluções narrativas que subestimam a inteligência do espectador de maneira quase ofensiva. O ápice desse problema surge na metade do filme, quando uma longa sequência de flashback tenta se impôr como grande virada dramática, apenas para reciclar a fórmula mais batida possível: “a vilã, na verdade, é uma vítima”. Tudo apresentado de forma genérica, sem complexidade ou qualquer sutileza.

No fim das contas, o filme não oferece nada de novo, apenas uma colagem de clichês mal disfarçados. Em nenhum momento, por exemplo, é crível a tentativa de vender Millie como uma “pobre coitada sem ter onde morar”, já que a construção da personagem é tão frágil que nunca consegue sustentar essa vulnerabilidade. O apelo sexual em torno de Sydney Sweeney também é evidente e explorado sem pudor, mas as cenas entre ela e Andrew beiram o constrangedor: falta química, falta tesão, falta verdade. O que resta é um roteiro preguiçoso que aposta em dois corpos bonitos em situações artificiais para fisgar um público específico, deixando claro que, sem isso, o roteiro simplesmente não se sustenta.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Crítica: Song Sung Blue: Um Sonho a Dois (2026)

Craig Brewer é um diretor conhecido por demonstrar um interesse particular no poder transformador da música em suas narrativas. Foi assim em Ritmo de um Sonho (2005) e no remake de Footloose (2011), filmes que tratam a música não apenas como pano de fundo, mas como motor emocional dos seus personagens. Inspirado no documentário homônimo de 2008, Song Sung Blue reafirma essa inclinação do cineasta ao acompanhar a trajetória de dois cantores que tentam reorganizar a própria vida por meio da arte.

A história gira em torno de Mike Sardina (Hugh Jackman), um artista frustrado que tentou seguir carreira autoral no passado, mas que acabou encontrando seu sustento ao imitar outros cantores em apresentações de bares. Caracterizado como Don Ho, ele conhece Claire (Kate Hudson), uma cabeleireira que também complementa a renda interpretando cantoras famosas. A conexão entre os dois surge instantaneamente, e logo se transforma também em parceria artística. Juntos, eles criam o duo Lightning & Thunder, com um show tributo a Neil Diamond que alcança relativo sucesso no estado do Wisconsin, até que uma tragédia pessoal atravessa suas vidas.

Se, por um lado, as sequências musicais são envolventes, vibrantes e prazerosas de assistir, o mesmo cuidado não se estende aos conflitos dramáticos. Brewer apela para soluções excessivamente melodramáticas, tratando os dilemas dos personagens com pouca sutileza. Ainda que a história real de Mike e Claire comporte uma virada emocional potente, o diretor falha na intensidade do drama, resultando em cenas que soam artificiais e enfraquecem o impacto final.

Nada disso, porém, pode ser atribuído ao elenco. Hugh Jackman e Kate Hudson exibem uma química convincente, sustentando o filme mesmo quando o roteiro acelera etapas importantes da relação. São dois personagens solitários mas cheios de energia, que encontram no outro um novo impulso para seguir em frente. Entre eles, no entrando, Hudson acaba se destacando um pouco mais, ao entregar uma atuação sensível e carismática, que acabou inclusive lhe rendendo a indicação ao Oscar de Melhor Atriz este ano.

Por fim, Song Sung Blue funciona mais quando confia na música e em seus intérpretes do que quando tenta forçar a comoção pelo drama. Ainda assim, é impossível negar a sinceridade de suas intenções, mesmo que a execução seja irregular. O filme nunca tenta ser maior do que é e, no fim das contas, se revela acima de tudo como uma homenagem sensível a quem tenta sobreviver da arte mesmo com todos os percalços pelo caminho.