O tema da imigração nunca esteve tão latente, e o cinema contemporâneo tem acompanhado essa urgência global de perto. Diversas produções recentes abordaram a questão com a seriedade e a sensibilidade necessária, mas infelizmente O Caso dos Estrangeiros (I Was a Stranger) segue o caminho oposto ao entregar um dramalhão carente de sutileza, feito sob medida para manipular as emoções e as lágrimas do público a qualquer custo, sem a devida complexidade narrativa.
O longa de estreia do diretor Brandt Anderson é apresentado em capítulos, e inicia em 2023, com a Dra. Amira Homsi (Yasmine Al Massri) chegando ao hospital onde trabalha em Chicago. Através das memórias da personagem, voltamos oito anos no tempo, quando ela ainda vivia com a família em Aleppo, capital da Síria. Na ocasião, o país estava em meio ao caos da guerra, e ela era responsável pela triagem de pacientes de ambos os lados feridos no combate. Na noite de celebração do seu aniversário, a casa da família de Amira acaba destruída por uma bomba, onde apenas ela e sua filha pequena sobrevivem.
A partir desta tragédia, Amira busca desesperadamente fugir do país. No caminho, mãe e filha cruzam com figuras que simbolizam as diferentes engrenagens do fenômeno migratório. Primeiramente, elas são ajudadas por um soldado, Mustafah (Yahya Mahayni), que parece ser um respiro de empatia em meio a outros soldados inescrupulosos. Em tese, ele representa o dilema moral de quem serve expressamente ao governo de Bashar al-Assad, mas não concorda com suas ideias. Em seguida, ficam nas mãos de um contrabandista chamado Marwan (Omar Sy, o nome mais conhecido do elenco), que viu na necessidade dos refugiados uma oportunidade de lucro financeiro. Por fim, chegam ao capitão Stravos (Constantine Markoulakis), cansado emocionalmente de testemunhar o fluxo incessante de refugiados no Mediterrâneo, mas sempre disposto a ajudar.
A jornada delas é repleta de dificuldades, o que me fez lembrar imediatamente de outro filme que toca neste tema delicado, Green Border, da polonesa Agnieszka Holland. No entanto, enquanto o filme polonês constrói uma narrativa linear sufocante, que aprisiona o espectador em uma tensão crescente, aqui a fragmentação em capítulos enfraquece o envolvimento emocional. Sempre que um núcleo dramático começa a ganhar força, a narrativa é interrompida abruptamente para acompanhar outro personagem, e isso acontece sucessivamente. O resultado é uma colcha de retalhos dramática que impede o aprofundamento nas histórias contadas, transformando traumas complexos em episódios apressados.
Outro problema central está na ausência de contextualização política. A guerra civil síria surge quase como pano de fundo abstrato, e sem uma mínima ancoragem histórica e geopolítica do conflito e do êxodo que ele causou, o drama perde densidade, parecendo apenas um estudo vazio de caso e um mero entretenimento da dor. A crise migratória é, de fato, uma questão universal, mas ignorar suas especificidades enfraquece o impacto. Ao optar por atalhos sentimentais e por uma estrutura fragmentada, O Caso dos Estrangeiros transforma um tema urgente em um melodrama superficial. Em vez de provocar reflexão, o filme se contenta com a emoção imediata, e ao fazer isso, desperdiça a oportunidade de oferecer um retrato verdadeiramente humano e politicamente consciente de uma das maiores tragédias contemporâneas.



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