segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Crítica: Extermínio: O Templo dos Ossos (2026)


Vou começar sendo bem sincero com vocês: eu nunca fui fã da franquia de terror e ficção científica Extermínio, criada por Danny Boyle e Alex Garland em 2002, e depois da enorme decepção que foi o último filme, lançado em 2025, eu prometi a mim mesmo que não perderia mais tempo com novas sequências. Dito isso, que gratificante foi quebrar essa promessa e assistir este quarto capítulo da saga, que não apenas revitaliza a franquia, como a reinventa sob o olhar ousado da diretora Nia DaCosta (de A Lenda de Candyman).


Extermínio: O Templo dos Ossos é uma sequência direta de Extermínio: A Evolução, e começa acompanhando uma gangue sádica, assassina e ultraviolenta, que usa estranhas perucas loiras e é liderada pelo perturbador Jimmy Crystal (Jack O'Connell). Ele desenvolveu toda uma teologia psicótica e delirante em torno da ideia de ser o próprio filho de Satã, crença que legitima seu domínio absoluto sobre seguidores submissos, que são capazes das maiores atrocidades em nome desta fé cega e distorcida.

O ritual de ingresso no grupo é brutal: o candidato deve lutar até a morte contra um membro já estabelecido, tomando seu lugar caso sobreviva. É assim que o jovem Spike (Alfie Williams), visto ao final do filme anterior deixando sua comunidade após a morte da mãe, é absorvido pela seita. Após vencer um combate sangrento em um ginásio abandonado, ele abandona seu nome e passa a se chamar Jimmy, assim como todos os demais. A partir daí, Spike acompanha a jornada sanguinária do grupo, que não teme os infectados e muito menos os vivos que cruzam o seu caminho. Isso até eles encontrarem o excêntrico Dr. Ian Kelson (Ralph Fiennes), responsável por erguer um monumental templo feito de ossos e crânios humanos.


Se Jimmy Crystal é o personagem mais fascinante da trama, o Dr. Kelson é o mais instigante. Pouco sabemos sobre seu passado ou sobre como ele conseguiu construir um santuário macabro em meio ao caos, mas pistas visuais, como fotografias com a esposa e discos de vinil dos anos 80, revelam que a memória ainda é um elemento central em sua existência solitária. Disposto a estudar os infectados a fundo, Kelson se dedica a observar um zumbi "Alfa" (uma subespécie evoluída que possui mais força e inteligência do que os infectados normais), a quem ele "carinhosamente" batizou de "Sansão".

A criatura demonstra força suficiente para partir um corpo humano ao meio, como vemos em uma cena inicial bastante impactante. No entanto, sempre que se aproxima para atacar o Dr. Kelson, é contida por dardos de morfina que a tornam inofensiva o bastante para as interações conduzidas a seguir pelo médico. Nestas sequências, o filme alcança um tom surpreendentemente lírico, mas ao mesmo cômico, e são através destas interações que o Dr. Kelson vai resgatando vestígios do que a criatura era antes da infecção.


Não se trata de humanizar os zumbis, mas de mostrar que há uma linha tênue entre consciência e instinto, razão e brutalidade. E é justamente aí que reside a maior força do filme: em um universo dominado por zumbis, os vilões mais aterradores continuam sendo os homens. O roteiro não está interessado apenas na violência física dos ataques, mas nas estruturas de poder, fé e manipulação que emergem em uma sociedade colapsada. Afinal, o que sobra quando o mundo "acaba"? Ainda há espaço para empatia? Para moralidade? Para humanidade?

Nia DaCosta aposta em uma abordagem mais intimista, mas não suaviza a brutalidade. Este é, sem dúvida, o capítulo mais sangrento da franquia, onde vemos sem filtro cabeças arrancadas, cérebros devorados, e rios de sangue. No entanto, a violência nunca soa gratuita, ela só reforça a degradação moral daquele universo. Mais importante ainda: este é o filme que entrega os personagens mais complexos e ricos da série. Tanto Ralph Fiennes como Jack O'Connell possuem um magnetismo impressionante quando estão em tela, sendo impossível ficar indiferente a qualquer gesto deles. A calma quase irritante do doutor contrasta com a fúria messiânica de Jimmy, criando um embate ideológico tão poderoso quanto físico.


Ao som da banda Iron Maiden, o clímax do filme explode em uma daquelas cenas antológicas que marcam o cinema, e que mostra, acima de tudo, a potência de Fiennes como um ator singular e absurdamente versátil. Se antes eu estava pronto para abandonar a franquia, agora me vejo ansioso pelo próximo capítulo. Nia DaCosta conseguiu não apenas reinventar a mitologia por trás dos filmes, mas consolidar um ponto de virada crucial na história, mostrando pela primeira vez em muito tempo, que este universo ainda tem algo relevante a dizer.

Nenhum comentário:

Postar um comentário