quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Crítica: Dead Man's Wire (2026)


Depois de seis anos afastado das telas, Gus Van Sant, diretor de Gênio Indomável (1997) e Milk: A Voz da Igualdade (2008), retorna em grande estilo com Dead Man's Wire, um thriller inspirado em um acontecimento real que paralisou a cidade de Indianapolis em fevereiro de 1977. Na ocasião, um homem, sentindo-se lesado por uma grande corporação de hipotecas, invadiu a sede da empresa e fez de refém o presidente, com a intenção de não somente reaver o dinheiro perdido por ele, mas também obter um pedido de desculpas público feito pelo dono.


A trama começa acompanhando os preparativos de Anthony Kiritsis (Bill Skarsgaard) para uma reunião marcada na empresa Meridian Mortgage Company. Após estacionar seu carro em frente ao prédio, ele entra meio desajeitado, carregando uma caixa retangular de papelão debaixo do braço. Anthony cumprimenta a todos com certa intimidade, e logo percebemos que ele costuma ir ao local com frequência, o que faz com que ninguém desconfie de suas verdadeiras intenções. Só quando finalmente fica a sós com o presidente, Richard O. Hall (Dacre Montgomery), ele revela uma espingarda calibre 12 que estava escondida na caixa. O verdadeiro alvo da ação era o dono da empresa, M. L. Hall (Al Pacino), mas convenientemente ele tirou uns dias de férias na Flórida, e restou ao filho lidar, cara a cara, com o homem enraivecido pelo sentimento de traição.

Com a arma presa ao pescoço de seu refém por um fio sensível, que a faria disparar sob qualquer movimento brusco, Anthony assume total controle da situação, mesmo após um enorme contingente policial circundar o local e iniciar uma tentativa de negociação. Em uma clara homenagem aos thrillers dos anos 1970, lembrando especialmente o clássico Um Dia de Cão, Van Sant constrói a tensão de forma paciente e progressiva, dando a sensação de que qualquer gesto em falso poderia resultar em uma tragédia.


O grande trunfo do filme, no entanto, não está apenas na mecânica do suspense, mas na complexidade moral de seu protagonista. Anthony não é um criminoso habitual, nem nunca foi, e esta é a grande questão do filme: até que ponto um homem comum pode abrir mão de seus princípios quando se sente esmagado por uma estrutura que considera injusta? Ele não queria ferir ninguém, queria apenas reaver o que, segundo ele, era seu por direito. Com a chegada da imprensa, ele vê na exposição midiática uma oportunidade de transformar seu ato em denúncia pública, o que talvez facilitaria a resolução desejada. Bill Skarsgaard apresenta um personagem contido e 

Quando a tensão se desloca para o modesto apartamento de Tony, após ele levar Richard consigo, o episódio assume contornos de espetáculo. O cerco policial ganha audiência nacional, e é nesse contexto que surge Fred Temple (Colman Domingo), um radialista influente na cidade e ídolo pessoal de Anthony. Por meio das conversas telefônicas com Fred, suas demandas passam a ecoar com maior clareza, humanizando-o diante do público e, ao mesmo tempo, ampliando a pressão sobre todos os envolvidos.


Van Sant conduz essa escalada com precisão cirúrgica, interessado menos na ação em si e mais nos dramas emocionais que ela revela. Dead Man’s Wire é, acima de tudo, um estudo sobre ressentimento, dignidade e a perigosa linha que separa o cidadão comum do homem disposto a tudo para ser ouvido. Sem recorrer a pirotecnias, o diretor transforma um episódio histórico em um drama tenso e inquietante.

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