quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

Crítica: Bar Doce Lar (2022)


Lançado no Brasil diretamente no catálogo da Amazon Prime, o novo filme dirigido por George Clooney, Bar Doce Lar (The Tender Bar), fala, acima de tudo, sobre amadurecimento, e conta as memórias do escritor e jornalista J.R. Moehringer, vencedor do prêmio Pulitzer por reportagens feitas ao Los Angeles Times.


O enredo começa nos anos 1980 mostrando a infância de JR em Long Island, que foi criado apenas pela mãe depois que o pai, um DJ de rádio famoso, abandonou a casa. JR tem como principal elo familiar o seu tio Charlie (Ben Affleck), dono de um bar chamado Dickens (em homenagem ao escritor Charles Dickens). Charlie se torna quase um mentor na vida de JR, sendo a figura paterna que ele não teve, ensinando ao garoto tudo que ele precisava para crescer decentemente, inclusive a gostar dos livros.

Ao mesmo tempo que o filme mostra a infância de JR, mostra ele já no começo da idade adulta, ansioso para conseguir uma vaga na universidade de Yale. E é aí que começam os problemas do filme, já que a transição de um período a outro, bem como a sequência, onde passa a focar apenas na sua vida adulta, são muito mal conduzidas.
O filme possui diálogos muito fracos, com uma enxurrada de frases de efeito prontas. A narração em off também me incomodou demais, por ser totalmente expositiva e na maioria dos momentos, desnecessária.


Também não consegui comprar a ideia da motivação do personagem em querer ser escritor, já que quando o roteiro parecia ir para esse lado, o da literatura, voltou atrás e não explorou isso como deveria. Algumas atuações também me pareceram muito forçadas, principalmente a do pai de JR, interpretado por Max Martini, e cuja relação com o filho é bastante superficial. A única ressalva do elenco é Ben Aflleck, que surpreendentemente cumpre bem o seu papel, de forma segura. Desde que decidiu se arriscar na direção há 20 anos atrás, a carreira de George Clooney tem sido marcada por muitos altos e baixos, e aqui temos, talvez, um dos seus piores trabalhos.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

Crítica: Roda do Destino (2022)


Dirigido por Ryûsuke Hamaguchi, Roda do Destino (Gûzen To Sôzo) apresenta três histórias distintas, que não se conectam narrativamente mas que têm em comum o protagonismo feminino, além de falarem sobre amor, desejo, passado e a forma como o destino se torna imprevisível nas nossas vidas.


Na primeira história temos duas amigas que se encontram e passam a conversar sobre suas vidas, e quando uma delas começa a falar sobre um novo affair, a outra descobre se tratar de alguém do seu passado. Na segunda história, temos um homem que "usa" a menina com quem está saindo para tentar seduzir e se vingar de um ex-professor que teria feito algo ruim para ele no passado. E por fim, temos a história de duas supostas amigas do colegial, que se encontram anos depois por acaso numa estação de metrô.

Não entrarei em mais detalhes das tramas para não atrapalhar a experiência de quem ainda não assistiu, mas já adianto que a primeira foi a que mais me agradou, principalmente por um plot twist genial que o diretor utiliza durante sua exibição. O filme todo é muito sutil, desde os diálogos até os gestos e olhares dos personagens. O elenco trabalha muito bem, e o enredo prende bastante a atenção, mesmo sendo um tanto arrastado. Um exemplo disso é que ele possui cenas de diálogos bastante longas, que chegam a quase dez minutos de duração, mas a conexão que se cria com os personagens é tão forte que eu me senti dentro da sala, junto com eles, querendo ouvir o desenrolar desses papos sem me preocupar com mais nada.


Por fim, Roda do Destino é um filme extremamente delicado, em todos os sentidos, e traz boas reflexões sobre a vida e sobre relacionamentos, sejam eles amorosos ou não. Um grande trabalho do Hamaguchi, que nesse mesmo ano ainda lançou outro filme bastante badalado, Drive My Car.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

Crítica: Playground (2021)


O bullying que acontece dentro dos muros das escolas já foi trazido inúmeras vezes para a tela do cinema, mas sempre há espaço para uma nova forma de abordagem sobre o tema. Playground (Un Monde), da diretora estreante Laura Wandel, fala sobre essa prática focando, principalmente, no quão nocivo e violento o ambiente de um recreio escolar pode ser no psicológico de uma criança que sofre com isso.


Nora e Abel são dois irmãos que começam a frequentar uma nova escola juntos. Abel é bastante retraído e quieto, e não demora para ele começar a sofrer abusos violentos dos outros alunos, alguns inclusive de séries mais avançadas e maiores que ele. Nora tenta intervir chamando os funcionários da escola, que a ignoram por já ter outros problemas para resolver, e sentimos na pele a agonia da menina, que tenta de tudo para ajudar o irmão e se sente impotente diante da situação. Para piorar, Abel não quer ajuda e fica até mesmo bravo com ela por isso, já que isso seria um sinal de "fraqueza" da parte dele.

Tudo é mostrado sob a perspectiva das crianças, sobretudo de Nora, e a câmera fica praticamente o filme inteiro na altura delas. São pouquíssimos os rostos adultos que aparecem, e apenas quando se abaixam para conversar com algum dos pequenos. Temos aqui uma realidade nua e crua da escalada da violência, já que em determinado momento Abel pega tudo que fizeram contra ele e acaba descontando em outro, sendo apenas parte de um verdadeiro ciclo vicioso.


É interessante a maneira como o roteiro também mostra o quão cruel as crianças podem ser umas com as outras quando não tem adultos por perto para vigiar, e sabemos como isso é bastante real. Indicado pela Bélgica ao Oscar de filme estrangeiro em 2022, Playground chama a atenção por diversos motivos, desde o tema ao roteiro competente, mas principalmente pela atuação da menina Maya Vanderbeque, que está incrível.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Crítica: Nitram (2021)


Em 28 de abril de 1996, a Austrália amanheceu chocada com as notícias do acontecimento que ficou conhecido como Massacre de Port Arthur, onde 35 pessoas foram mortas a tiros por um homem em um ponto turístico da região da Tasmânia. Mas o que leva alguém a cometer um ato tão violento desses e com pessoas inocentes? É partindo dessa premissa que o diretor Justin Kurzel nos apresenta Nitram, filme que traz um pouco da história do autor deste massacre, que desde sempre teve nítidos problemas comportamentais mas que nunca recebeu o devido tratamento e a devida atenção.


Chamado de Nitram, apelido jocoso que recebeu ainda na escola como forma de bullying, o rapaz é extremamente inconsequente, e isso vem desde criança quando por brincadeira colocou fogo na sua escola. Durante todo o tempo de duração do filme, tive a sensação estranha de não saber o que ele faria a seguir, pois se trata de um personagem impulsivo e capaz de qualquer coisa. Isso também é sentido pelos seus pais, que não sabem o que fazer com ele, e ao invés de buscar ajuda optam pelo mais fácil que é simplesmente deixar ele fazer o que quiser. Essa liberdade acaba sendo muito mais nociva para ele do que se ele recebesse limites e castigos, e isso fica cada vez mais evidente ao longo da trama.

Certo dia Nitram conhece Carleen (Judy Davis), uma mulher mais velha, que é viúva e muito rica, que praticamente o adota como o filho que ela não teve. Carleen passa a mimá-lo, como forma de compensar o que ele não teve dos pais, dando presentes e até mesmo um carro para ele. A princípio é uma relação estranha e até difícil de engolir, mas entendi que por ser uma mulher solitária na finitude da vida, ela aceitou Nitram em troca de ter uma companhia.


A construção da personalidade do protagonista é muito boa, e isso se deve demais a atuação de Caleb Landry Jones, uma das melhores que vi nos últimos anos. É realmente impressionante o trabalho do ator, e foi muito merecido seu prêmio de melhor atuação em Cannes. Por fim, o filme ainda traz uma boa discussão sobre a liberação de armas de fogo para civis, já que o caso real ajudou inclusive a mudar as leis de armamento no país.

terça-feira, 4 de janeiro de 2022

Crítica: Summer of Soul (2021)


Quando se fala em um grande festival de música que ocorreu em 1969 nos Estados Unidos, inevitavelmente nos vem à cabeça o festival de Woodstock, com sua mensagem de paz e amor que moldou uma geração. Porém, naquele mesmo ano, há cerca de 160 quilômetros de distância, acontecia outro festival de extrema importância e relevância cultural, mas que por diversos motivos ficou no ostracismo por mais de cinco décadas. Estou falando do Festival Cultural do Harlem, que reuniu em seis semanas cerca de 300 mil pessoas em um dos bairros mais pobres de Nova Iorque, e que com 50 anos de atraso chega ao conhecimento mundial nas mãos do produtor musical, ator e agora diretor Questlove.


Nos dias do evento, grandes artistas pisaram no palco, como Stevie Wonder, B. B. King e Nina Simone, deixando o público, majoritariamente formado por pessoas negras e pobres, em êxtase. Muitos na plateia jamais haviam assistido a um show, ainda mais de artistas negros, e é muito bonito ver essa identificação no olhar de cada um. Essas pessoas finalmente estavam se sentindo representadas, num misto de felicidade e esperança por dias melhores, em um período que parecia tudo perdido após a morte recente de grandes líderes do movimento negro como Malcolm X e Martin Luther King.

Mais do que um simples documentário sobre o evento, Summer of Soul é um verdadeiro documento histórico por trazer à tona as imagens do festival que ficaram 50 anos escondidas após terem sido rejeitadas por produtores na época, que não viam com bons olhos a efervescente cultura black sendo mostrada para o mundo todo. Além das imagens dos shows, o filme também apresenta entrevistas com pessoas que estavam lá, tanto no palco como na plateia, e outras dezenas de imagens de arquivo que contextualizam a situação da luta pelos direitos civis nos Estados Unidos e mostram o porque desse festival ter sido muito mais do que apenas um evento musical, mas sim, um manifesto da luta racial pela igualdade de direitos. Um filme necessário e histórico!