Passado e presente, vida e arte; tudo se entrelaça de forma delicadamente poética neste novo filme do cineasta francês Cédric Klapisch, que sempre teve como característica marcante em suas obras mostrar os pormenores das complexas relações humanas. Em As Cores do Tempo (La Venue de L'avenir), o diretor se debruça sobre a passagem do tempo e, sobretudo, sobre as transformações profundas que moldaram a forma como o ser humano enxerga o mundo e suas próprias conexões entre os séculos XIX e XXI.
A trama inicia nos dias atuais, onde um grupo de mais de trinta pessoas descobre serem todos descendentes de uma mesma mulher: Adele Meunier, nascida em 1873 na região da Normandia. Eles são reunidos por um motivo: um grande conglomerado comercial quer comprar o local onde Adele morava para expandir a área de um imenso e moderno shopping center. A casa, fechada desde 1944, só pode ser aberta com a presença de herdeiros, e para isso são escolhidos 4 representantes: Seb (Abraham Wapler), um criador de conteúdo digital que está cheio de dúvidas quanto ao próprio futuro, Celine (Julia Piaton), uma engenheira da indústria de transportes que vive atarefada e ansiosa pela rotina corrida, Abdel (Zinedine Soualem), um professor de francês que está prestes a se aposentar e vive imerso em uma crise existencial, e Guy (Vincent Macaigne), um apicultor meio "hiponga".
Ao adentrarem a casa, que é quase uma cápsula do tempo por estar preservada do mesmo jeito que foi deixada, eles descobrem inúmeras fotografias, pinturas e cartas esquecidas; verdadeiros fragmentos de uma vida que resistiram ao tempo. Aos poucos, aquelas imagens não apenas despertam curiosidade, mas também reforçam laços, já que eles vão pouco a pouco reconhecendo fotos de seus próprios familiares ainda na infância. Na parede, um calendário marca aquele que possivelmente foi o último dia da casa habitada, curiosamente um dia antes de um bombardeio da segunda guerra mundial.
A partir desse ponto, Klapisch constrói sua narrativa em camadas, alternando o presente com o passado. Numa das linhas temporais, voltamos dois séculos, e acompanhamos a jovem Adele deixando a mesma casa rumo à Paris, com a intenção de encontrar sua mãe, que ela até então nunca havia conhecido. Na capital francesa, Adele faz amizade com dois jovens apaixonados pela arte, cada um com sua particularidade: Anatole é pintor, enquanto Lucien está aprendendo a arte da fotografia. Enquanto Lucien provoca o amigo ao sugerir que a pintura caminha para a obsolescência, ambos se veem imersos na efervescência cultural de uma Paris pulsante, marcada pelo surgimento do impressionismo e pela influência de nomes como Claude Monet. Juntos, os três compartilham não apenas um quarto de pensão, mas também inquietações, descobertas e o desejo de compreender seu lugar no mundo.
Klapisch conduz essas transições temporais com leveza e dinamismo, estabelecendo paralelos visuais e emocionais entre estas duas épocas distintas. A Paris do passado e a do presente se espelham em um jogo de contrastes: carroças dão lugar a automóveis, vestidos longos a roupas casuais, cartas a celulares. Mais do que um recurso estético, essa justaposição revela a permanência de certas inquietações humanas, apesar das transformações tecnológicas e sociais, e também não deixa de ser uma verdadeira carta de amor do cineasta à cidade luz. Uma das cenas mais emblemáticas sintetiza esse encantamento: do alto de uma colina, Adèle e seus amigos observam, pela primeira vez, o acendimento das luzes da Champs-Élysées, como se testemunhassem o nascimento de uma nova era.
Com a simplicidade e o humor característicos de sua filmografia, Klapisch constrói uma obra que é, ao mesmo tempo, um tributo à arte como forma de preservação histórica e um sensível ensaio sobre identidade, memória e pertencimento. Por fim, As Cores do Tempo mostra que o passado sempre vai permanecer vivo, escondido em objetos, imagens e lembranças, aguardando apenas o momento certo para ser redescoberto. E que talvez seja justamente nesse reencontro silencioso com quem fomos que nós conseguimos, enfim, compreender quem somos.




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