segunda-feira, 23 de março de 2026

Crítica: Peaky Blinders: O Homem Imortal (2026)


Com seis temporadas exibidas entre 2013 e 2022, Peaky Blinders se consolidou como uma das produções de maior sucesso na história da televisão. Criada por Steven Knight, a série britânica da BBC, que ganhou distribuição mundial da Netflix, iniciava em 1919, no rescaldo da Primeira Guerra Mundial, e acompanhava a ascensão da gangue de origem cigana Peaky Blinders, liderada por Thomas Shelby (Cillian Murphy). Entre negócios ilegais, apostas em corridas de cavalo e confrontos armados mortais, a série construiu um retrato estilizado e brutal do submundo britânico e rapidamente se tornou um fenômeno. Agora, quatro anos após o seu encerramento, esse universo retorna em Peaky Blinders: O Homem Imortal, filme que busca oferecer um desfecho definitivo à trajetória da família Shelby.


Ambientado em 1940, o roteiro se passa em meio ao início tortuoso da Segunda Guerra Mundial. Thomas, que no fim da série é visto partindo sem rumo em cima do seu cavalo, está vivendo em autoexílio, distante de tudo e de todos, acompanhado apenas por Johnny Dogs (Packy Lee). A tentativa de levar uma vida tranquila e pacata, enquanto escreve um livro de memórias sobre a história da família, é interrompida pela chegada de Kaulo (Rebecca Ferguson), irmã gêmea da mãe do filho bastardo de Thomas, Duke.

Ela vai até o local para lhe deixar a par de uma ameaça difícil de ignorar: Duke (Barry Keoghan), que agora comanda os Peaky Blinders em Birmingham, está se perdendo em sua própria prepotência, sendo mil vezes mais implacável que o pai na gestão do grupo criminoso. Mais do que isso, ele está prestes a firmar um acordo com os nazistas, que pode não somente colocar em risco o legado da família, como também o próprio futuro da Inglaterra. Diante desse cenário, Thomas é forçado a retornar, não apenas para conter o filho, mas para impedir uma catástrofe de escala nacional.


O antagonista da trama é John Beckett, vivido pelo sempre excelente Tim Roth. Ele está por trás de uma operação do exército nazista, que visa injetar milhões de libras falsificadas no Reino Unido afim de colapsar a economia britânica, enfraquecendo silenciosamente o inimigo de guerra. E a melhor maneira de fazer isso? Usando o crime organizado e a sua grande circulação de dinheiro em espécie. Justamente por isso, John entra em contato com os Peaky Blinders, mais precisamente com Duke, afim de utilizá-los como um braço neste esquema. Com algumas reviravoltas, a narrativa se sustenta sobre estes dois eixos bem definidos: o conflito íntimo entre pai e filho, e a ameaça externa que cresce à sombra da guerra.

Esteticamente, o filme preserva com rigor a identidade visual que consagrou a série. A direção aposta novamente na atmosfera sombria, nos enquadramentos elegantes e em uma trilha sonora pulsante que amplifica a tensão dramática. Nesse contexto, a escolha por Barry Keoghan também se mostra acertada: seu personagem é imprevisível, magnético e perigosamente instável. Considerado um dos melhores atores dessa nova geração, Keoghan sustenta muito bem esta personalidade, injetando uma energia nova à história.

No entanto, quando o filme tenta responder questões que ficaram em aberto no fim da série é que ele encontra suas maiores fragilidades. Ao tentar oferecer respostas concretas para arcos antes sustentados pela ambiguidade, o roteiro inevitavelmente divide opiniões. O destino de Arthur, o irmão de Thomas, que na série é interpretado por Paul Anderson, é enfim revelado, e se torna uma grande decepção para mim, justamente por ir de encontro a uma ideia de irmandade inabalável construída ao longo das temporadas. O final de Ada (Sophie Rundle), irmã de Thomas, também é bem questionável, mas ainda mais problemático se torna o destino do próprio protagonista, cuja subjetividade no final da sexta temporada era bem mais marcante do que o final entregue aqui.


Outro ponto que me deixou dividido ao longo do filme foi o uso excessivo das visões e presságios por Thomas. Esses elementos sempre estiveram presentes em Peaky Blinders e, dentro da construção simbólica ligada à origem cigana dos personagens, fazem sentido dramático e estético. No entanto, aqui eles parecem extrapolar sua função narrativa. Há a sensação de que praticamente todas as decisões do protagonista passam a ser guiadas por essas visões, e o recurso, que antes funcionava como um complemento simbólico, torna-se um atalho narrativo que com o tempo soa repetitivo e cansativo. Por fim, O Homem Imortal é um retorno envolvente e tecnicamente sólido ao universo dos Peaky Blinders, mas que infelizmente tropeça nessas pequenas, porém corrosivas, escolhas narrativas. Ainda assim, pode ser visto como um acréscimo válido à trajetória de um personagem que, independentemente do desfecho, já se encontra imortalizado.

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