Escrito e dirigido por John Patton Ford (de Emily, A Criminosa), o thriller de humor negro Manual Prático da Vingança Lucrativa (How to Make a Killing) parte de uma premissa provocativa e inicialmente estimulante, mas tropeça na execução ao tentar equilibrar sátira social com um ação banal, se tornando, no fim, apenas um entretenimento pouco inspirado.
Becket Redfellow (Glen Powell) é um prisioneiro que está prestes a ser executado, e antes disso recebe a visita de um padre (Sean C. Michael). Ele passa a contar sua trajetória ao sacerdote, o que automaticamente acaba transformando o personagem em um narrador onipresente de sua própria história. Oriundo de uma família milionária, Beckett nunca nem viu de perto essa riqueza, já que sua mãe (Nell Williams) foi expulsa de casa no começo da vida adulta pelo seu avô (Ed Harris), após ter engravidado de Becket e se negado a fazer um aborto. Crescendo longe do conforto e do poder que o sobrenome carrega, ele sempre observou os demais membros da família prosperando graças aos seus privilégios.
Trabalhando como vendedor em uma loja de ternos, ele dá de cara com sua antiga paixão de infância, Julia Steinway (Margaret Qualley), que aparentemente vive uma vida de luxo ao lado do noivo. Este reencontro reforça sua sensação de fracasso e deslocamento social, o que provoca em Becket uma vontade irreprimível de reivindicar, de uma vez por todas, aquilo que sempre achou ser seu por direito. Ao descobrir que é o oitavo na linha de sucessão da fortuna da família Redfellow, tudo que ele precisa fazer para colocar as mãos na herança milionária é eliminar os sete primos e parentes que estão em seu caminho. Diante disso, mesmo sem experiência no mundo do crime, Becket se torna um assassino extremamente hábil e eficiente, eliminando um a um dos seus "concorrentes".
O que poderia render uma análise ácida sobre ganância, ressentimento e pertencimento, acaba se diluindo em uma sucessão de assassinatos cada vez mais simplórios. Há uma tentativa evidente de revestir essas mortes com um humor absurdo, mas o tom raramente se sustenta, e este artifício não funciona. Os alvos de Becket, como o primo extravagante Taylor (Rafferty Law), que trabalha em Wall Street e vive dando festas grandiosas, o artista pretensioso Noah (Zach Woods) que se autointitula como "o Basquiat branco", e o pastor Steven (Topher Grace), dono de uma dessas igrejas modernas de paredes pretas, até esboçam potencial satírico, mas recebem pouquíssimo tempo de tela, funcionando quase como vinhetas descartáveis. Essa superficialidade impede qualquer envolvimento mais consistente, seja no campo cômico ou dramático.
Essa artificialidade se agrava quando o roteiro abandona, de forma deliberada, qualquer critério moral. Se as primeiras vítimas eram figuras de personalidades controversas, que de certa forma justificavam suas mortes de acordo com a lógica do protagonista, a adição de personagens como Warren (Bill Camp) e Ruth (Jessica Henwick), que demonstram traços genuinamente humanos, poderia trazer uma perspectiva ética interessante. No entanto, o filme não se interessa por esse caminho: ambos têm destinos idênticos aos demais, sem que haja qualquer reflexão sobre as implicações dessa escolha. A violência, assim, perde peso e se reduz a um mero mecanismo funcional da trama.
Embora tente, a todo momento, justificar suas ações, as motivações do protagonista permanecem difusas, sobretudo porque o filme se recusa a aprofundar o estudo de sua personalidade. Glen Powell tenta fazer o seu melhor, mas o personagem raso nunca lhe oferece material suficiente para explorar nuances ou construir uma trajetória verdadeiramente convincente. O mesmo vale para a condução da investigação policial: a ausência de qualquer ameaça real por parte dos agentes do FBI, que surgem em cena apenas como figuras protocolares e inofensivas, torna a jornada de Becket excessivamente fácil, esvaziando qualquer possibilidade de tensão.
A personagem de Margaret Qualley, por sua vez, surge como uma figura quase abstrata, uma espécie de femme fatale, cuja função se resume apenas em ser o fio condutor de uma grande reviravolta final. Por fim, Manual Prático da Vingança Lucrativa é um filme com uma boa premissa e que começa instigante, mas que, à medida que avança, se torna tão mecânico quanto os crimes de seu protagonista.



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