Vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2010 por O Segredo dos Seus Olhos e responsável por outras obras belíssimas como O Filho da Noiva (2001), Clube da Lua (2004) e A Grande Dama do Cinema (2019), o cineasta argentino Juan José Campanella retorna aos cinemas após sete anos com o sensível Parque Lezema. O drama, lançado diretamente no catálogo da Netflix, é baseado na peça homônima do próprio diretor, que foi um sucesso nos palcos argentinos por mais de uma década e que, por sua vez, já era uma adaptação da peça I'm Not a Rappaport lançada na Broadway em 1985 por Herb Gardner.
Na trama, León (Luis Brandoni) e Antonio (Eduardo Blanco) são dois idosos que se encontram diariamente em um banco da famosa praça Lezama, em Buenos Aires. A escolha de manter os mesmos atores da montagem teatral se revela extremamente acertada: há uma naturalidade rara na interação entre os dois, uma química construída ao longo dos anos que transborda autenticidade. Entre conversas sobre laços familiares, amores do passado e ressentimentos, o filme sustenta duas horas de diálogos densos e enriquecedores, que nunca se tornam tediosos graças à relevância dos temas e à força das atuações.
León é um ex-militante comunista verborrágico, espirituoso e um virtuoso inventor de histórias. Antonio, por sua vez, é o contraponto perfeito: pragmático, tranquilo, e avesso a conflitos. Prestes a perder a visão periférica, ele ainda trabalha como zelador no mesmo edifício há mais de cinquenta anos, até ser confrontado com a possibilidade de uma aposentadoria forçada após a modernização do condomínio. Seu último pedido é simples e comovente: permanecer até o Natal, quando os moradores tradicionalmente oferecem gorjetas. No entanto, nem mesmo seu conhecimento exclusivo de uma antiga caldeira parece ser suficiente para garantir sua permanência em um mundo que já não precisa mais dele.
O humor do filme é um de seus grandes trunfos. Ácido e perspicaz, ele emerge principalmente através de León, que se recusa a aceitar passivamente o destino do amigo e enfrenta a administração do prédio com ironia e irreverência. León é, sem dúvida, o personagem mais complexo do filme. Seu idealismo, que ainda resiste fortemente mesmo após décadas, se mistura a uma compulsão por fabular: em suas histórias, já foi espião, psiquiatra, até mesmo um premiado cineasta em Cannes. Há algo de profundamente humano nessa confusão entre realidade e invenção, como se suas “mentiras” fossem uma válvula de escape para uma vida que, no fundo, ele teme ser banal.
Personagens secundários aparecem ao longo da narrativa para tensionar e ampliar o universo dos protagonistas: uma jovem leitora que desperta memórias afetivas nos dois, um professor universitário que representa a frieza burocrática ao atuar como porta-voz da demissão de Antonio, um ladrão que paradoxalmente oferece “proteção” em troca de dinheiro, além de um traficante que faz os idosos saírem definitivamente da sua zona de conforto. Entre todos, quem se destaca no entanto é Clara (Verónica Pelaccini), filha de León, cuja preocupação com a saúde mental e física do pai sucita alguns dos melhores embates do filme. Ao insistir que ele precisa de acompanhamento, seja morando com ela, seja em uma casa de acolhimento, Clara evidencia não apenas um conflito familiar, mas também um choque de visões sobre autonomia, envelhecimento e dignidade.
Campanella preserva a essência teatral da obra. O espaço é limitado, o tempo é marcado por pequenos gestos, como a luz do poste que se acende ao cair da noite, e a ação é quase inteiramente conduzida pelos diálogos. Trata-se de um filme deliberadamente estático, mas verbalmente pulsante. Campanella faz questão de não se render aos maniqueísmos do cinema contemporâneo, e une tudo isso tudo a uma trilha sonora nostálgica e assumidamente sentimental, que reforça o tom melancólico sem jamais soar artificial.
Mais do que um estudo sobre a velhice, Parque Lezama é uma obra delicada sobre a indiferença e incompreensão das gerações mais jovens em relação às anteriores. Ao revisitar, com ironia e afeto, os tempos de militância e utopia, Campanella também sugere que talvez o mundo contemporâneo tenha perdido algo essencial, não apenas no campo político, mas na própria capacidade de sonhar e de se conectar com o outro.




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