segunda-feira, 30 de março de 2026

Crítica: Paul McCartney: Man on the Run (2026)


O cineasta Morgan Neville venceu o Óscar de melhor documentário em 2014 com A Um Passo do Estrelato, que contava a trajetória artística das "backing vocals" que contribuíram harmonicamente em algumas das canções mais famosas do mundo, mas que permaneceram à margem da fama, sempre no anonimato. Com Paul McCartney: Man on the Run, ele mostra o extremo inverso da indústria musical, ao acompanhar um dos maiores nomes da história, Sir. Paul McCartney, em um momento paradoxalmente sensível e extremamente frágil de sua carreira.


O documentário se apoia em um vasto e valioso material de arquivo para reconstruir o período posterior ao fim dos Beatles, que ocorreu extraoficialmente em 1969. Sobre a chamada "maior banda de todos os tempos", parece não haver mais o que mostrar, após tantas obras já terem adentrado profundamente na rotina do grupo. O que Neville faz aqui, no entanto, é deixar o mito coletivo de lado para focar no indivíduo. A reclusão de Paul em uma zona rural da Escócia, ao lado da família, ganhou contornos quase míticos na época, alimentando rumores absurdos na mídia sobre sua possível morte. Enquanto isso, longe dos holofotes, Paul tentava se reconectar com a própria identidade criativa, entre paisagens verdejantes e a lida com os animais do campo. É neste isolamento que surgem suas composições mais íntimas, que resultaram em um primeiro álbum solo registrado com seu simples gravador de quatro canais.

Partindo deste momento reflexivo e recluso de Paul, o filme acompanha cerca de doze anos na sua trajetória musical, até o ano de 1981, quando a banda Wings, que ele formou junto com sua esposa Linda, o guitarrista Denny Laine e o baterista Denny Seiwell, chegou ao fim. O retrato bastante pessoal, que conta com a narração do próprio Paul, é marcado por uma riqueza de detalhes que equilibra leveza e tensão. Há espaço tanto para momentos descontraídos quanto para passagens mais densas, especialmente quando aborda a animosidade que surgiu entre ele e John Lennon após a separação da banda, uma ruptura permeada por ressentimentos e mal-entendidos, que o tempo trataria de apaziguar, ainda que não sem cicatrizes.

Um dos aspectos mais sensíveis do filme está na maneira como ele retrata a figura de Linda McCartney. Ela foi peça fundamental na reconstrução artística e emocional de Paul, e sua presença constante, incentivando e participando ativamente do novo projeto musical, revela uma parceria que extrapolava o campo afetivo, e que se manteve sólida até 1998, ano em que infelizmente ela veio a falecer vítima de um câncer de mama. Fotógrafa de carreira notória, com trabalhos publicados em veículos importantes como a revista Rolling Stone, Linda assumiu os teclados do Wings a convite de Paul, decisão que lhe rendeu críticas duras e uma perseguição frequentemente misógina, algo que ela mesma sempre enfrentou com firmeza, sobretudo no palco, com performances cheias de energia.

Man on the Run se revela, no fim das contas, um retrato profundamente humano de alguém que precisou se reinventar diante do colapso daquilo que definia sua identidade pública. A trajetória posterior de McCartney fala por si, mas o grande mérito do filme é justamente revisitar aquele momento em que essa continuidade ainda era uma incerteza, nos lembrando que até mesmo os maiores nomes da história já precisaram, em algum momento, começar de novo. Para os fãs, como eu, trata-se de um material emocionante e imperdível.

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