quinta-feira, 3 de abril de 2014

Crítica: Expresso do Amanhã (2013)


Um filme distópico e pós-apocalíptico, que se passa num futuro não muito distante onde o homem é o lobo do homem. O enredo parece clichê de enlatado americano, mas se engana muito quem pensa isso. Dirigido pelo sul-coreano Bong Joon-ho (Memórias de um Assassino / Mother - A Busca pela Verdade) e produzido pelo experiente Park Chan-wook (Oldboy), Expresso do Amanhã (Snowpiecer) é uma das melhores obras de ficção científica já feitas para o cinema e consequentemente um dos melhores filmes dos últimos anos.



Estamos num futuro próximo, mais precisamente em julho de 2014. Numa tentativa de frear o aquecimento global, 79 países firmam um acordo para dispersar CW-7 (uma substância resfriadora) na atmosfera, como alternativa para diminuir a temperatura da terra a um nível aceitável. Porém, o plano dá errado e a Terra acaba congelada, extinguindo quase toda a raça humana. Os únicos sobreviventes? Uma parcela da população que embarcou em uma arca indestrutível.

Projetada por Wilford (Ed Harris), um aficionado por ferrovias, a arca tem o formato de um trem, com centenas de vagões, e roda 438 mil quilômetros interligando todos os continentes e completando o ciclo exato de um ano a cada volta. A estrutura faraônica parece impensável nos dias de hoje, mas o diretor criou tudo com tantos detalhes, que parece crível aos nossos olhos.


O filme pula para 2031, 17 anos depois do fatídico episódio com o CW-7. A Terra ainda vive sua nova "era do gelo", e os humanos continuam vivendo dentro da arca. No entanto, como era de se esperar, dada a natureza humana como ela é, existe agora um regime autoritário que comanda todos os atos alheios.

Além disso, há uma diferença gritante de classes, que divide toda a população. Os menos avantajados financeiramente vivem de forma desumana no último de todos os vagões, onde são obrigados a dar seus filhos para fins não esclarecidos e a comerem uma barra de proteínas feita com restos de dejetos e insetos, além de serem castigados de forma sádica o tempo todo.


Cansados de viver dessa forma, um grupo começa a planejar uma revolta, tendo como líder Curtis (Chris Evans). Durante os 17 anos de vida na arca, diversas revoltas já foram iniciadas, mas todas terminaram com a chacina dos envolvidos. Dessa vez eles querem fazer diferente, e para isso pretendem contar com a ajuda de Nam Goong Min-soo (Song Kang-Ho), o projetista do sistema de segurança da arca que está na prisão do local.

Enquanto eles planejam o golpe, conhecemos a Ministra Mason (Tilda Swinton completamente irreconhecível), que aparece no último vagão para fazer um discurso após um princípio de tumulto, iniciado durante uma contagem de população (feita diariamente antes da refeição). Na sua fala ela enaltece Wilford como se ele fosse um Deus, um ato constante entre grande parcela dos habitantes. A figura do criador da arca é glorificada exacerbadamente, em um misto de adoração e idolatria.


A revolta toma forma depois que o grupo consegue matar os guardas que impedem sua passagem. Indo em frente, eles chegam ao próximo vagão, onde Min-soo está preso, dormindo em uma gaveta (igual às gavetas de necrotérios). Em troca de doses de Kronol, uma droga viciante e alucinógena, Min-soo aceita ajudá-los a abrir as portas de todos os vagões, numa tentativa de chegar ao vagão chefe, onde reside Wilford.

Tem início então nossa viagem pelas mais diversas formas de vida humana. A cada vagão, uma nova surpresa. Uma das cenas mais belas dessa parte é quando o grupo chega a um vagão com janelas, e consegue enxergar o mundo lá fora depois de tantos anos. Faz a gente pensar em quão bonito é o mundo que nos rodeia, e o quão pouco fazemos proveito disso.


Ao abrirem a próxima porta, temos mais uma das cenas emblemáticas do filme. Um exército de homens está aguardando do outro lado, prontos para trancar a passagem, e a batalha campal tem início. Muitas perdas são contabilizadas, de ambos os lados, mas o grupo de revoltosos consegue se sair "vencedor", mesmo com a morte de Edgar (Jamie Bell), um dos líderes. O mais importante da ação é que eles conseguem sequestrar a ministra Mason, que promete ajudá-los em troca de sua própria vida.

Os próximos três vagões são os mais belos e surreais da arca. O primeiro deles é todo arborizado, com árvores, plantas, e jardins belíssimos. Jovens que nasceram na arca e nunca tinham sentido a terra nas mãos ganham a oportunidade pela primeira vez. Já no próximo, há um aquário colorido espetacular, com direito a uma parada para comer sushi. Depois disso chegam à escola, onde as crianças da "primeira classe" entoam cânticos de idolatria a Wilford. 



O que parecia tranquilo ganha ares dramáticos quando o grupo volta a se confrontar com homens armados. No meio de mais algumas perdas significativas, Curtis sobrevive junto com Min-soo, e ambos conseguem chegar de forma heroica ao primeiro vagão, onde fica o escritório de Wilford. O final é primoroso, e deixa algo subjetivo, implícito.

O trem, na verdade, é a representação da humanidade em sua mais plena forma. Trata-se de uma crítica ácida a respeito da divisão social em que vivemos, onde a possibilidade de alguém da "camada inferior" alcançar a "superior" é ínfima, e os segundos se aproveitam disso.


A direção de arte é engenhosa e impecável, fazendo com que cada um dos vagões possua sua própria individualidade, e cada um dos ambientes demonstrem algo da nossa existência, da nossa cultura, da nossa civilização. As atuações são precisas, e conta com um elenco de peso. Chris Evans chama a atenção no papel principal, em sua melhor atuação da carreira até o momento. Outros nomes que se destacam é o de Tilda Swinson, que está irreconhecível, Jamie Bell e Octavia Spencer, além dos veteranos Ed Harris e John Hurt. Mas o que mais encanta é realmente o enredo, muito bem construído e cheio de reviravoltas, que o faz fugir de todo e qualquer clichê.

O filme infelizmente não recebeu a divulgação merecida, e poucas pessoas por aqui acabaram sabendo de sua existência no lançamento. Uma pena, porque é uma grande obra, e que por justiça deveria ser mais reconhecida. Afinal, não é tarefa fácil estabelecer uma história que mescle aventura com crítica social sem transformar num filme pretensioso. Está aí mais um brilhante trabalho de um dos diretores mais respeitáveis do cinema oriental.



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