sexta-feira, 18 de abril de 2014

Crítica: O Homem Duplicado (2014)


"O Caos é uma ordem ainda Indecifrável". É com essa frase de José Saramago que se inicia mais uma adaptação de uma obra sua para o cinema, O Homem Duplicado (Enemy). Depois do excelente Ensaio Sobre a Cegueira, do brasileiro Fernando Meirelles, a missão de levar às telas mais um romance do escritor lusitano caiu dessa vez nas mãos do canadense Denis Villeneuve (Incêndios / Os Suspeitos), mas o resultado final, porém, ficou muito abaixo do que eu esperava.


A trama começa mostrando o dia-dia do professor universitário Adam (Jake Gyllenhaal), que faz as mesmas coisas todos os dias, em uma rotina cansativa, do momento em que acorda até o momento em que vai dormir. Certo dia, um colega de Adam pergunta a ele se ele gosta de cinema e recomenda que ele assista "Onde há vontade, há caminho".

Após pegar o filme numa locadora, à primeira vista ele não percebe nada de mais na obra, e tem até um sentimento de indiferença para com ela. Porém, após uma noite de sonhos inquietos, ele resolve rever o filme em uma cena especifica (que aparece no seu sonho), onde se depara com uma situação que ele não havia percebido anteriormente: um dos atores que aparece na tela é exatamente igual a ele, como se fosse uma cópia fiel e perfeita da sua aparência.



Intrigado com a situação, ele anota todos os nomes do letreiro final na tentativa de saber o nome do ator, e após pesquisar na internet, descobre que ele se chama Daniel Saint Claire e que ele já trabalhou em diversos filmes. A partir de então, Adam resolve assistir todos os seus trabalhos, ficando cada vez mais obcecado por esse estranho "sósia".

Como se não bastasse o susto de saber que existe alguém igual a ele no mundo, as pessoas ao redor passam a chamá-lo com o nome do ator, e até a mulher de Daniel confunde sua voz no telefone com a dele. Após diversas tentativas de contato, Adam consegue marcar um encontro entre os dois em um hotel às escondidas, mas não imagina que a conversa entre eles vai mudar pra sempre as suas vidas. Inicia-se um joguinho de interesses entre eles, com um querendo ter a vida do outro, o que acaba levando a um final trágico e inesperado.

Aliás, sobre o final faço aqui um adendo: o filme é feito de diversas metáforas, que podem confundir a cabeça de muitos, assim como confundiu a minha. O diretor não se preocupa em responder algumas questões, e eu particularmente não gosto de filmes assim, onde aparentemente só o diretor entende e cada um tem sua própria versão. Por isso, confesso que o final me deixou bastante desanimado (e pensando "mas que porra é essa?), sobretudo por tentar passar alguma espécie de significado que eu não consegui compreender.



O enredo no entanto tem um bom ritmo. O clima é bastante sufocante, como se algo fosse acontecer a qualquer momento no meio das cenas, e isso serve para prender o espectador do início ao fim. Villeneuve vai tecendo aos poucos uma teia vasta de acontecimentos e detalhes, que por mais atenção que lhe sejam prestados, acabam deixando pontas soltas e até mesmo indecifráveis. As atuações de Jake Gyllenhaal e Melanie Laurent são concisas. Aliás, Gyllenhaal parece finalmente ter conquistado um status de respeito após seus últimos trabalhos, em um amadurecimento explícito e bem-vindo da carreira. 

Por fim, O Homem Duplicado é o tipo de filme que é preciso ser visto mais de uma vez (talvez duas, três, quatro...) para que possamos compreender sua magnitude, pois é complexo e extremamente subjetivo. Salvo alguns pontos positivos já descritos acima, o longa é para mim uma verdadeira decepção, e já pode ser descrito como um dos filmes mais controversos de 2014.


19 comentários:

  1. Concordo, a obra de Saramago é tão densa quanto este filme. Villeneuve fez, mais uma vez, certo ao colocar todas as sensações sentidas em Saramago no filme. Presumo que os maus entendedores do filme não conheçam Saramago e seus livros, sobretudo o homem duplicado.

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    1. Sól, por favor, como conhecedora das obras de Saramago, qual é o significado da aranha gigante??

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    2. Pois então, eu que já li esse livro duas vezes também não compreendo o significado. Para mim é pura viagem do diretor, que tentou fazer algo alegórico que acabou sendo muito mal explicado.

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  2. cara, ja li varios livros do saramago, mas o final desse filme nao fez caralha de sentido nenhum pra mim. me ilumine entao das trevas do meu mau entendimento por favor.

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    1. Sobre a cena final, eu também não compreendi, confesso.

      Lendo alguns comentários pela internet, até que a história teve um certo sentido, mas ainda não foi suficiente para fazer eu gostar do resultado final. Realmente, seria melhor ter ficado apenas com o livro na cabeça.

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  3. È metafora demais pra filme de menos...Bem..falar filme é um pouco demais...O Diretor consegue entreter mesmo com uma história sem pé nem cabeça...mas no final da vontade de jogar uma pedra na tela,ahh isso dá....Não li o livro..apenas a história do livro..e digo que o Final deste deixaria uma metáfora linda jogada ao ar..mas o final do Filme foi patético

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  4. Alguém que faça uma crítica nesse nível intelectual e analítico não merece espaço para escrever nada sobre cinema, se não foi capaz de entender, de compreender, o que o filme fala, não despeje sua ignorância numa falsa critica.
    A crítica inicia-se com uma espécie de ridicularização dos filmes artísticos, ou seja, não se trata de alguém que realmente aprecie cinema, mas talvez apenas de alguém que curta entretinimento bobo em geral, enfim…
    O filme é uma alegoria, como o livro. O filme belamente constrói um mistério em torno do mistério de se ter um igual, der haver alguém que seja exatamente você fisicamente. A alegoria que falei é quanto a duas coisas. Num nível menos complexo há o sentimento da traição, a criação de uma segunda personalidade, no caso a do Professor, para suprir a necessidade do adultério criada pela gravidez da esposa.
    Na primeira cena do filme vemos a mulher do Anthony nua enquanto ele está num clube de sexo e uma mulher se masturba, posteriormente uma mulher aparece tentando esmagar uma aranha, que em primeira análise é seu impulso sexual. Posteriormente a aranha vai ganhando mais espaço em si de acordo com que ele vai se aproximando de sua real personalidade. (Inclusive esse desejo sexual é exposto na tentativa de abuso contra sua namorada no início do filme). Nesse sentido o filme passar a ter um combate maniqueista entre o bom e o mal Adam/Anthony. Quando enfim seu desejo sexual é realmente liberto, ele Anthony, real, consegue cometer o adultério por um artifício psicológico sobre si mesmo, a personalidade boa o suprime e em tese vence sobre o seu pior eu. Porém ao ver a chave no final, que é a porta de entrada para o clube do início do filme, ele inventa uma desculpa para ir lá a noite, e assim, seu desejo sexual pelo adultério volta a tona fortemente e por isso ele vê novamente a grande aranha. E como ele disse no início, a história sempre se repete duas vezes, ou seja, é uma reflexão sobre ele voltando novamente ao início do filme.
    Numa análise mais profunda ah o tema do totalitarismo, muito presente na obra do Português Saramago. Ele leciona sobre ditaduras e totalitarismo, no início do filme e a película nada mais é do que uma alegoria sobre o totalitarismo, porém de forma brilhante ao travar a questao dentro do cérebro e sobre a figura de um homem, cujo Estado é a cidade que ele habitam que nada mais é do que um labiríntico mental que ele próprio criou. As aranhas, e as teias que aparecem a todo momento no filme (no acidente do carro, nos fios do transporte publico) são a representação do poder e da repressão. Ele é o totalitarismo que é superado e se reinventa…ele é as duas faces da luta, lembre-se que no início do filme ele fala da repressão individual: quando ele descobre um idêntico ele nao pode ser novamente um indivíduo, e vice verás em relação ao Anthony. Ele é o controle e o controlado. E no fim, quando nao há mais saída para o totalitarismo, um bom Eu, Estado, surge, mas somente ate ser corrompido novamente pelo desejo de poder (a grande aranha no final). O filme traz questões quanto a inerência do desejo pelo poder no ser humano e os artifícios que a mente, e o Estado, podem criar para conseguil-lo.
    Além do mais a fotografia é brilhante e a direção também. É a atuação de Jacke é firme e incrivel como sempre.
    É, enfim, um bom filme a quem tem olhos.

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    1. Obrigado por compartilhar seu ponto de vista.

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    2. Nossa... escrevi em meu blog sobre minhas impressões e meio que vou pelo segundo caminho, sobre totalitarismo, mas mesmo assim, você foi muito mais elucidativo do que eu... e a primeira tese descrita por você é praticamente perfeita e não deixa nenhuma arresta no roteiro... parabéns!

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    3. Caro anônimo, obrigado por tentar "elucidar" nossas cabeças, mas não aceito as ofensas gratuitas. Entretenimento bobo? Desculpa, mas você não me conhece para vir falar asneiras, como se eu fosse completamente leigo no assunto.

      Seja sincero, você realmente leu a obra de Saramago? Se leu, lhe pergunto: Onde está a alegoria da aranha para você dizer que o filme é como o livro? A tensão de descobrir que há outro igual a ti eu concordo, mas no livro isso é muito mais expressivo do que no filme. Além do mais, o filme mistura vários aspectos não existentes no livro, como adultério e sexualidade reprimida, o que estragou absurdamente a essência da obra original, transformando-o em uma adaptação precária e sem sentido.

      Enfim, por mais que você tente mostrar entendimento acerca do enredo, eu continuo achando que tudo não passa de uma viagem do diretor, que leu o livro fumando maconha e fez sua própria releitura idiossincrática.

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    4. Rafael, eu já li o livro e já vi esse filme umas 3 vezes, sem falar em análises. Você acha que o filme tem que fazer as mesmas alegorias do livro para ser fiel? Na minha opinião, o filme é muito mais denso que o livro, e os dois tratam sim da mesma questão, embora com premissas diferentes. O livro se refere à perda de identidade nesse mundo globalizado, individual em que vivemos. O filme também é sobre perda de identidade, mas como o próprio diretor disse em entrevista, tudo está relacionado ao subconsciente da personagem( Tertuliano, no livro, e Adam, no filme). No filme, não existe duas personagens, só uma, e um constante conflito consigo mesma( daí vem o nome "Enemy"). Você parece defender muito a ideia de que o filme não foi digno ao livro, o que não concordo. Embora tenha muitas metáforas e seja de difícil entendimento, o filme se trata de um problema muito comum que é o conflito interno de uma pessoa. Eu, na verdade, fico grato pelo diretor ter somente baseado no livro, tanto que nem o título é o mesmo ( livro em inglês é "The double", o filme é "Enemy"), pois a obra do Saramago, com sua premissa própria, já satisfaz. Se fosse feito um filme partindo de todas ideias do autor, tentando ser o mais fiel possível, eu me daria por satisfeito com o livro.

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  5. Não sou o anonimo la em cima hahahaha e nem li o livro, mas o comentario dele fez mais sentido rafael =)

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  6. pelo amor de Deus, com todo o respeito, o cara pode até ser um diretor brilhante, mas ele nem sequer detalhou o real sentido da história, ficou muito aquém do que é a obra do Saramago, nem riqueza de detalhes teve, na verdade foi um resumão com um final muito viajado... eu tenho esse livro, e a mensagem é fantástica, o cara nem se preocupou em mostra-lá, se mostrou, foi muito ''resumida''

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  7. pensa num filme imbecil.... agora multiplica por 10.... depois soma com uma trama sem sentido... agora junta com vômito... pronto, é essa porcaria de quase uma hora e meia... assistam e concluam que é uma merda.... e aqueles que falam que deve ser visto sob outra ótica e tal... me perdoem...mas aprendi que só uma zebra reconhece uma zebra... abraços

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  8. Assisti esse filme e no inicio não entendi o final, depois fiquei refletindo sobre ele. A aranha representa a mulher do personagem principal que por sua vez tem dupla personalidade e não existe clone nenhum. A cena em que a prostituta esmaga a aranha, simboliza a traição e o sentimento de culpa do personagem. Na cena em que a esposa vai ao trabalho do marido e percebe que ele não está nada bem reforça a idéia dos problemas mentais do Antony, pois ela liga para o Anthony e ele só atende depois de sair da cena o que confirma que eles são a mesma pessoa e que o mesmo é esquizofrênico. A esposa gravida nota isso e entra no jogo para vê se o marido melhora . A cicatriz advem do acidente de carro e o adam (ATOR) não existe é tudo loucura do personagem,nota-se isso em determinada cena em que a esposa pergunta como foi o dia de trabalho do marido na faculdade. Na cena com a mãe dá entender que ela sabe dos problemas do filho de ser infiel e nota-se a confusão mental de Antony pois ele afirma não gostar de blueberries mas na verdade ele gosta. O filme representa o lado bom e ruim do personagem e sua tentativa de permanecer fiel, porem na cena final do filme quando ele abre o envelope, pega uma chave (do clube de strip) e inventa uma desculpa para esposa, recomeça tudo novamente, ele sente o desejo de trair a esposa por isso ve ela como uma aranha e a teia representa a "prisao" do casamento.

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  9. Adorei as loucuras desse filme e se é adaptação não tem que ter obrigatoriamente uma fidelidade,são mídias diferentes...

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  10. Filmaço! Não li o livro, mas com certeza é mais profundo e detalhado, normalmente é assim. Nunca vi um filme superar um bom livro. No caso desse, vejo um filme bem feito, que traz inúmeras reflexões, além de simbolismos bem tratados. Achei ótima a interpretação do Anônimo.

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  11. Confesso que irei assistir novamente, mas desde logo posso afirmar que a intenção não foi fazer uma ADAPTAÇÃO do livro, apenas um filme BASEADO no livro, e isso você tem de concordar que foi feito com maestria. Eu gostei do filme, não achei um filme completamente indecifrável, mas a cena do final foi COMPLETAMENTE desnecessária, poderia ir por outro caminho. Deixou quase todos que assistiram com o seguinte pensamento: "Porra! Termina assim!? ... ?!?!?!?!?!?!?!"

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