domingo, 20 de abril de 2014

Crítica: A Jaula de Ouro (2014)


Todos os dias, milhares de pessoas saem de suas cidades, de todos os cantos da América Central, rumo ao sonho de viver a vida nos Estados Unidos. Isso é uma triste realidade pela qual já ouvimos e ainda ouviremos falar muito, infelizmente quase sempre com um final dramático. A Jaula de Ouro, do diretor estreante Diego Quemada-Diez, mostra essa luta de uma forma humana e visceral, como poucas vezes mostrada até então nas telas.


O filme começa silencioso, com a primeira palavra sendo proferida apenas depois de passados sete minutos. Até lá, acompanhamos imagens do dia-dia de dois adolescentes de uma cidade na Guatemala, que sonham atravessar a fronteira do México com os Estados Unidos para melhorar de vida. Um deles é Juan, que logo se firma como uma espécie de chefe entre eles. O outro na verdade é uma menina, Sara, que esconde os seios, corta o cabelo e usa roupas de menino para tentar esconder seu sexo, usando o nome de Osvaldo. Junto deles ainda está um terceiro garoto, Samuel.

Depois de serem transportados de barco até uma ponte férrea, eles pegam carona clandestinamente num trem de carga, que já estava transportando outras dezenas de homens, todos escondidos. Ao chegar em uma pequena cidade, passam a fazer apresentações artísticas na rua para ganhar dinheiro para a alimentação. Pegos pela polícia, todos são levados de volta à Guatemala, junto com um quarto garoto, que fez a viagem junto com eles.

Eles não desistem, e resolvem tentar refazer o longo caminho da primeira vez. Porém, o fardo é pesado demais para Samuel, que desiste de tudo deixa o grupo desfalcado. A dor nos seus olhos é tocante na hora em que ele dá adeus aos companheiros. Percebemos que se trata da dor de deixar um sonho para trás, e de se culpar por não ter a coragem suficiente de enfrentar as dificuldades que viriam pela frente. Apoiado pelos amigos, ele então fica, e os outros seguem viagem.


Como o caminho é basicamente todo por florestas, eles tem que se virar para sobreviver no meio do mato, enquanto tentam alcançar o objetivo. Por sorte, o garoto que entrou no grupo por último é um índio, chamado Chauk, que conhece um pouco mais da selva do que os dois que viveram a vida toda na cidade. No caminho, porém, são surpreendidos violentamente pela polícia de imigração, mas são salvos por um homem que esconde eles em uma casa até a polícia ir embora.

Em uma nova travessia, o trem onde eles estão sendo transportados acaba sendo assaltado, e todos obrigados a descer. A gangue de assaltantes pede todos os pertences das pessoas, além de separar as mulheres e colocá-las em um caminhão. Pensamos logo na sorte de Sara estar se passando por homem, e o quanto isso está servindo para salvar sua vida. No entanto, isso dura até um deles descobrir seu disfarce, e ela ser levada junto.


O triste destino de Sara a gente desconhece (ou finge desconhecer para não se deprimir ainda mais), e no fim das contas, sobram juntos apenas os dois que no início não se davam: Juan a Chauk, que na dificuldade vêem um no outro a força para seguir em frente. Seguindo viagem, novamente são surpreendidos, dessa vez por narcotraficantes, que tentam ganhar algum proveito diante da situação de desespero dos que estão no trem junto com eles.

Apesar de toda a dificuldade, e de inúmeros fatos que fariam qualquer um de nós desistir, eles chegam enfim a tão sonhada fronteira com os Estados Unidos. Milhões e milhões de quilômetros de um muro infinito, que atravessa paisagens, montanhas e cidades ao meio. Ao dar esse último passo rumo ao sonho,infelizmente algo acontece aos dois, e faz com que tudo desmorone de forma irreversível. 

Juan consegue atravessar e ganhar a vida no país norte americano, mas com um emprego miserável e sem perspectiva alguma de mudança. O fato nos leva a pensar em tudo pelo qual essas pessoas tem que passar, para chegar no dito "país de primeiro mundo" vivendo igual ou pior do que viviam em seu país natal. Mais do que isso, faz a gente pensar em quão mesquinhos somos por reclamar de coisas bobas, quando outros vivem de forma desumana pelos quatro cantos do planeta.


É realmente um filme que mexe com o emocional de quem assiste, e é impossível ficar indiferente. O final é de uma beleza que chega a encher os olhos de lágrimas. Afinal, não se trata de apenas mais um filme sobre a travessia da "fronteira proibida", mas sim, de um filme sobre o ser-humano, sobre suas esperanças e desesperanças, e sobre os sonhos temos de ter uma vida digna, que deveria ser direito de todos.

As atuações dos jovens são brilhantes. Cada personagem cativa por alguma qualidade própria, o que cria um laço muito forte com quem assiste. Por isso mesmo, o fim de cada um mexe com a gente como se fossem conhecidos nossos, e é impossível não sentir um peso no coração.


Segundo uma entrevista feita com o diretor Diego Quesada, que já trabalhou como operador de câmera para diretores como Ken Loach, Fernando Meirelles e Alejandro González Iñarritú, o processo de filmagem foi complicado e passou por momentos tensos, como a intervenção de narcotraficantes que queriam embargar o longa. 

Para sorte nossa, ele seguiu em frente, e trouxe para os nossos olhos uma narrativa pesada, consistente, e de forte valor emocional. La Jaula de Oro foi destaque em diversas premiações, inclusive no Festival de Cannes do ano passado, onde os três protagonistas receberam prêmios por suas interpretações. É certamente um dos melhores filmes do ano.


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